A escadaria do esquecimento

Senti dois tiros. Um contra meu peito, outro contra o pescoço. A dor lancinante, a súbita percepção de órgãos e músculos que eu nem sabia que existiam. O sangue esvaindo por minha farda. Aquela substância viscosa, urgente, que salta aos olhos, e agora aspergia meu corpo, prenunciando minha morte.

Morte como herói, cumprindo meu dever. Morte com propósito. Fui surpreendido durante uma abordagem. Ladrões de carro. Furaram nossa blitz. Meu colega foi imobilizado, e os bandidos dispararam contra mim na hora, quando voltei de um posto de gasolina, onde busquei cobertura até o momento que julguei que não haveria troca de tiros.

A luz dos postes se confundiu com minha visão se desfocando, até as últimas luzes deste mundo se confundirem com o clarão de minha consciência se esvaindo. Não havia mais preocupação, medo, alegria. A morte chegou. E, com ela, a decepção de ver que os símbolos religiosos pareciam mera invencionice disciplinar dos homens. Nada de céu, nada de inferno, nada de anjinho tocando harpa.

Senti meus pensamentos se desligando. Eu era mera matéria agora. Coisa. O silenciamento cerebral leva a uma vã transcendência. Saía do corpo para o nada. Uma vaidade espiritual autorreferenciada.

Mas estou em um lugar estreito, talvez o patamar de uma escada. O topo e a base estão cobertos por uma penumbra que não me permite distinguir o que há além. Do topo, vejo uma garota, adolescente, loira, magra e descabelada, de short jeans rasgado. Passou por mim sem me ver.

— Onde estamos, garota?

— Não sei... — Respondeu, o olhar vazio, de vidro.

Aterrorizado, vi a morte mais nela do que em mim. A minha forma, quando eu ainda estava vivo, é a mesma aqui: minha farda, minha tatuagem de arma, meu corte de cabelo. Não tive tempo de fazer mais perguntas: desapareceu escada abaixo. Agora uma senhora, com dificuldade de andar, vinha descendo. Apoiei-a em meu braço.

— O que faz aqui, senhora?

— Senhora? Mas eu... que lugar é esse?

Olhou em seguida para as próprias mãos, como se não se reconhecesse naquele corpo.

Apoiando-se no corrimão, seguiu escada abaixo como se não se reconhecesse no corpo ou idade que tinha. Seja lá o que houvesse na sala no topo daquela escada, fazia o quê, as pessoas perderem a memória?

Subi o restante da escada, e observei várias pessoas saindo, sem saberem ao certo onde estavam. Idosos, jovens, crianças. A porta era velha, de madeira, toda carcomida.

Se eu entrasse ali, me esqueceria de mim. Parecia um fato. Mas... e se eu quebrasse a parede e espiasse o que me esperava, antes de ser afetado, por seja lá o que me aguardasse do outro lado? Por uma fresta, na parede de tábuas de madeira, não vi nada, apenas a penumbra em uma sala vazia. Parei por um instante e ponderei. O que fazer?

Percebi um vão discreto no teto que insinuava o céu sinistro, púrpura, onde a lua parecia assustadoramente próxima, arrastei uma caixa para mais perto, flexionei os joelhos e saltei até alcançar uma das grossas ripas. Escorei-me nela com firmeza, esgueirei-me pelo vão e saí pelo teto. Avancei por sobre uma claraboia no caminho e saltei pelo lado de fora das sala.

Silêncio. Um vento sinistro percorria por saliências púrpura que meus olhos não distinguiam, suspendendo partículas de poeira.

Um garotinho, a uns vinte metros de distância, em roupas estranhas, anacrônicas, perguntou:

— É sua primeira vez aqui, né?

Confirmei com a cabeça.

— Sabe, as pessoas não passam pela porta antes porque são obrigadas.

Como com os outros que encontrei antes, eu ia fazer perguntas, mas a voz não saía.

— Os mortos não falam, Ezequiel!

Caminhou calmamente em minha direção. era como se eu o conhecesse por toda a minha vida. Parte de mim.

— Você gostaria de saber porque morreu? Ou prefere sentir todas as suas memórias, em uma rajada só?

Eu tinha a sensação de ter passado a vida inteira sem conhecer ninguém. Como se eu tivesse esquecido da saudade e das memórias vinculadas a ela. Aquele vácuo... como era apavorante estar naquele nada! Sem saber quem sentiria minha falta, quem construiu memórias comigo, o que fez minha vida ser conduzida daquele jeito que me fez parar ali. A ignorância de como ser feliz à forma e semelhança de si próprio.

— Se escolher a segunda opção, você vai ficar aqui para sempre. Abrirei as portas para você voltar à sua vida, mas você não poderá passar por ela. Sequer saberá como encontrá-la. A rajada vai consumir tudo que resta de sua consciência, e você se perderá aqui.

Caí de joelhos ali, diante daquele garoto, e agora, ele mais perto de mim, foi possível entender aquele déja-vu: era... era eu mesmo quando criança! Que diabos estava acontecendo?

Balbuciei:

— Então as pessoas... que eu conheci antes, na escadaria...

— Sim. Todos sucumbiram à saudade. Queriam ver as pessoas que amam mais uma vez. Podem ir embora quando quiserem, mas pertencem a mim. Nunca mais sentirão a vida diante de seus sentidos. Sem conquistas, sem vaidades, sem tristezas.

— E se eu escolher a primeira opção?

— Aí, você terá outra chance de se contentar com as vaidades medíocres do ser humano. Vai voltar a um mundo que não entende. Pode ter uma vida boa ou uma sobrevivência horrível. — Deu de ombros e concluiu, indiferente, com aquela voz impúbere— Não importa. Eu sempre ganho.

— Ninguém sai daquela sala, então — Apontei para a porta atrás de mim.

— Vamos dizer que sai sempre caro para quem tenta.

E desapareceu, em meio à penumbra. Ele não perguntou o que eu preferia. Não precisava. Por um instante, quis escolher a segunda opção. Mas eu não lembrava se eu conheci meus pais, se tinha amigos, se as pessoas gostavam de mim, se eu tinha algum vício ou motivo que tornava minha vida horrível.

Mas escolhi a primeira opção.

E a penumbra e aqueles tons púrpura se tornaram mais nítidos: eram ossos em meio a corpos em decomposição, de todas as pessoas que eu amava. Mamãe foi a primeira que encontrei. O rosto parcialmente carcomido, putrefato, pela terra. Imagens difusas ao redor dela mostram o que julguei ser o enterro dela. Gritei para o vazio funesto ao meu redor. Caminhei atordoado sentindo o barulho dos ossos sob meus pés Os amigos da polícia, os de escola, os primos, as pessoas que salvei de cativeiros, assaltos, suicídios, de abusos de menores...

Perdi tudo que minha existência construiu, de uma vez só. O cheiro de morte impregnou todo o meu corpo, e minha bile lutava para não sair. Após eu perceber o vale da morte em que eu me encontrava, um clarão tomou conta de mim e senti ar, músculo e escaras, uma dor paciente, crônica e renitente por todo meu corpo. Como uma punição daquela entidade, por eu ter ousado não me subjugar diante dele. Em pouco tempo, aquela consciência do além se esvaiu como um sonho perdendo validade diante da vigília. Mas ele era tão perverso que me fez voltar ao mundo dos vivos apenas com o movimento dos olhos, acometido por uma paralisia que tomou todo o meu corpo. Agora eu era apenas matéria, que a moral do mundo a meu redor hesitava em descartar.

O além me puniu com o presente e o futuro.

Pouco após o clarão, ele... ele se despediu dizendo:

— Agora você sofrerá sem saber por que.

Dali para frente, me esqueceria de tudo menos uma coisa: a vida podia ser mais assustadora do que a morte.


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