A grande família

Eu me achava um adolescente como qualquer outro. Passava minhas tardes no Minecraft ou conversando com os amigos pelo celular, contando as moedas para o cinema e torcendo para me deixarem ir para uma festa no próximo fim de semana.

Minhas notas não iam bem, então dei azar e meus pais apareceram na última reunião de pais e professores. Mas algo curioso ocorreu durante ela. O pessoal na escola começou a cochichar que sabiam quem meu pai era. Ora, quem mais meu pai poderia ser? Um repórter de meia-idade do jornal local. Enfim. Como todo boato, nunca tinha fonte certa. Às vezes ou ouvia no recreio:

— Cara, é verdade que seu pai combatia o crime na cidade? — Dizia o mais curioso.

— Porque você nunca contou que seu pai é o Capitão Paradoxo? — Perguntava outro.

Aquilo era surreal. Acho que eu saberia se meu pai vestisse uma roupa colorida e saísse pela noite combatendo o crime ou algo assim. O Batman não é exatamente um cara que se mistura na multidão, certo?

— Galera, é tudo boato. Quero fontes! — Às vezes perdia a paciência.

Com a maioria das pessoas, o assunto logo mudava. Mas havia os mais insistentes, com talento para detetive. Um deles, Davi, comentou comigo:

— Meu pai foi chefe de polícia antes da minha mãe engravidar, cara. Ele confirmou a história, lembrou de seu pai...

— Só me faltava essa! — Protestei.

— Peguei isto dos arquivos da sala dele, enquanto ele tomava café — Disse, e mostrou para mim uma ficha policial. Peguei aquilo rápido da mão dele e perguntei quem mais sabia. Segundo ele, ninguém. Mentiroso.

Não respondi a ele e me retirei dali, como se algo naquela notícia pudesse me devorar. Não sabia o que pensar. Em casa, passei pela antiga estante, cheia de enciclopédias desatualizadas e livros de receita que mamãe nunca mais usou. Destoando daquele museu no meio da sala, encontrei um livro cuja capa cedeu ao tempo, de folhas amareladas. E havia um conto do Capitão Paradoxo. Descubra mais sobre ele no conto homônimo e volte aqui mais tarde.

Sim, eu quebrei a quarta parede. Me julgue.

Com aquilo em mãos, escondi dentro de minha mochila e fui me trocar, quando os ouvi chegar em casa pouco depois de mim. Mamãe foi me cumprimentar no quarto, e avisou que o jantar sairia em uma hora. Pouco depois, desci, e enquanto a ajudava a colocar a mesa, perguntei como quem não quer nada.

— Hoje na escola estavam falando que o Capitão Paradoxo... é pai de um dos alunos.

— É mesmo, querido?

— Sim. Que mundo pequeno, né?

— Espero que o garoto não seja muito bulinado pelos colegas por causa disso. Os meninos podem ser cruéis...

Ela parecia sincera, ao mostrar aquele desinteresse. Como se nunca tivesse ouvido falar dele. Meu pai chegou pouco depois, perguntou como foi a escola e reclamou mais uma vez de como a internet estava promovendo demissões toda semana na redação. Pensei em fuçar mais e perguntar a ele, enquanto ele se servia de purê de batata durante o jantar, sobre o passado dele. Mas... talvez fosse melhor eu fazer aquilo longe de mamãe, e decidi comer sem tocar no assunto.

Minha mãe tornava a tarefa de atender o telefone algo mais complicado do que deveria ser. Nunca dava para deixá-la satisfeita: se eu dizia que ela estava, me esculachava reclamando que não queria atender alguma amiga chata ou parente grudento de papai; se eu dizia que não estava, me esculachava igual, dizendo que iam achá-la uma eremita azeda se eu dissesse toda vez que ela não estava; e se eu dizia que eu não sabia por não estar em casa, reclamava que eu nunca fazia nada com ela e que os videogames estavam me deixando mais distante e agressivo, quando eu perdia a paciência e me negava a atender o telefone.

Basicamente, quem ligava só descobria se ela estava ou não em casa... quando a ligação era feita. Antes de a ligação ser atendida, mamãe estava em uma superposição. Estava e não estava em casa simultaneamente. Nosso ato de atender a ligação força a decisão da natureza. Nossa curiosidade é que mata o gato. Mas veja só: também somos como o gato. Ou o gato morre e o vemos morto, ou o gato vive e o vemos vivo. Então, quem nos observa para forçar a natureza e colapsar em uma só realidade? Ou será que as duas possibilidades ocorrem um paralelo dentro de um multiverso de larga escala?

Era com as ligações telefônicas que era possível comprovar isso: ver como mamãe gostava e odiava as amigas de bairro simultaneamente. Algo parecido rolava quando meu pai ligava: antes de ele ligar, ele se lembrava e esquecia de algo que ela havia pedido. Ele estava e não estava no happy hour com os amigos, em vez de aguentar a sogra em casa após uma cirurgia.

Onde foi que eu li isso antes?

Eu era filho da Mulher-Gato de Schrödinger.

Foi quando me deu um estalo. Minha mãe... meu pai... como aquilo era possível?

Será que nem vovó sabia daquilo? Ou será que, antes de essa história meia-boca e metalinguística engrenar, ela também estivesse em uma superposição? Sabia e não sabia simultaneamente? Bem, fazia sentido. Eu era e não era o Júnior a cada reunião familiar. Nem sempre acertava meu nome. Quem diria que a memória de um idoso serviria de metáfora para teorias da física?

Logo afastei esse pensamento e voltei à escola no dia seguinte. Mas nada mais seria o mesmo. Logo vieram os abelhudos perguntarem:

— Cara, é verdade que seu pai é casado com a Mulher-Gato de Schrödinger?

Era exatamente aquela conclusão à qual eu chegara, depois de ler o conto do misterioso livro. Mas eu me recusava a acreditar. Só que agora, assim como no conto, a natureza me forçou a escolher.

— Cuida da sua vida, cara!

— Ser casado com sua arqui-inimiga... imagina as brigas de casal!

— Quem se casaria com alguém que detesta, cara? Para de falar besteira!

— Obviamente, você não conhece meus pais...

Bem, foi uma boa resposta, a dele.

Voltei para casa e decidi descobrir mais sobre o passado deles. Fui à copa e peguei os álbuns de família. Vi as fotos de casamento, os dois bem jovens. Em algumas, era possível ver minha mãe jogando o buquê para cima, para as amigas encalhadas tentarem pegar. O paradoxo começava ali: a que pegou era justamente a que tinha menos chances de encontrar o homem certo. Tia Adelaide. A voz aguda dela e as calças lycra que ela comprava na Riachuelo geravam reações misturadas de mim e meus primos adolescentes. Antes de ela passar, meu pau ficava em uma superposição: ereto e flácido simultaneamente. A puberdade em si era outra superposição: antes de eu saber se eu era gente de verdade, ficava envergonhado e à vontade ao mesmo tempo, em qualquer situação social. E até com tia Adelaide rolava isso: se a gente ouvisse a voz dela, ao telefone, por exemplo, era outra superposição: era jovem e velha ao mesmo tempo. Vestia-se do mesmo jeito que aos vinte e cinco anos, e ao mesmo tempo não queria ninguém olhando para ela na rua.

Pelo jeito, era coisa de família.

Observei os outros convidados mais ao fundo, e havia pouca gente que eu conhecia. Tinha um homem com o rosto mais severo, sério, que parecia um poste, de tão colado não chão. Será que era o pai de Davi? Tirei uma foto do álbum no celular para comprovar a história depois.

Notei minha mãe indo para a cozinha e guardei tudo em silêncio, para evitar perguntas.

Na semana seguinte

Eu e a turma saímos escondidos para beber cerveja escondidos dos adultos, em um bar risca-faca do centro da cidade. Era Glacial, que só dava azia e barriga, mas parecíamos os donos do mundo. Davi ria igual uma hiena, e eu começava a ver meus pés dobrados. Era demais.

Eu não sabia se podia confiar naquela memória, mas vi meu pai saindo, meio sorrateiro, de um prédio. Não quis ir em direção dele, dar um oi, pedir carona para casa para não virar piada entre os outros meninos e ser chamado de "o filhinho do papai".

Cheguei engatinhando em casa, após passar cinco minutos conversando com uma lixeira na rua achando que era o Dani amarrando os sapatos. Caí na cama, ruim, e fingi dor de barriga. Nem acredito que essa colou com mamãe. Ou não colou. Quer dizer, ela mal entrou no quarto, ficou apenas encostada no portal e perguntou. Portanto, eu estava em superposição: estava e não estava de ressaca ao mesmo tempo, certo?

Mais tarde, à noite, confirmei no Google Maps que papai saíra de... um ateliê de Margarete Gregório? Era a estilista mais famosa da cidade. Que diabos estaria ele fazendo lá?

Lembrei-me que a filha da Margarete estava uma turma à frente da minha e decidi fuçar no dia seguinte. Na hora do recreio, fui a ela sem cerimônia, coisa que eu não faria normalmente. Mas, sem a preocupação de ser rejeitado por ela, ficou menos difícil.

— Ahn... oi, Margarete.

— Ah, é você, Júnior... olha, tô esperando umas amigas voltarem, depois a gente...

— Sua mãe costurou um uniforme de super-herói essa semana?

— Como você...

— Olha, todo mundo sabe de meu pai. Tô tentando descobrir o que tá acontecendo. Você sabe, lá em casa...

Ela hesitou por um instante, olhou para os lados, e não querendo ser vista com um mané como eu por muito tempo, respondeu:

— O Capitão Paradoxo voltou a aparecer nos jornais, combater o crime. Tava ficando caro combater o crime, então ele começou a buscar parceiros. E minha mãe topou.

— Tipo um youtuber? O Capitão ganha presentes e é só falar bem da marca?

— É, mais ou menos isso. Agora cai fora, as meninas voltaram — Acenou para elas ao longe e me deixou.

Agora que eu confirmara aquela informação, eu tinha uma missão. Percebi isso quando a escola liberou nós, alunos, mais cedo: parecia um toque de recolher, mas justificaram que aquela semana haveria reuniões pedagógicas entre os professores.

Se papai e mamãe ainda eram vilões, parecia que um não sabia do outro. Como aquilo era possível?

Duas semanas depois

Um dia decidi seguir meu pai. Na hora de dormir, escondi-me atrás do muro de casa e observei a rua até vê-lo sair para combater o crime. Quase caindo no sono, perto da meia-noite encontrei um homem vestido com um collant verde e laranja, um P tatuado na lateral esquerda, uma máscara que escondia apenas os olhos, e sabia que o Capitão Paradoxo estava pronto para salvar o dia.

Segui-o até um imóvel abandonado, perto da via expressa, e ele guardou o celular após confirmar a localização. Chegou furtivamente flanqueando pela rua e abateu o segurança que controlava o acesso ao local. Com a boca sangrando, caído na rua, ouvi o segurança provocar o Capitão.

— Chegou tarde pro Carnaval, Capitão. O prédio tá cheio de laranjas e cabides de empregos dos vereadores da oposição, adversários políticos do dotô Correa.

O Capitão avançou pelo prédio, desamarrando e acompanhando todos para fora do prédio decrépito. O segurança, ainda caído no chão, algemado a uma barra na entrada do prédio, debochava dos esforços dele:

— A gente conseguiu alvará para esse prédio, mas ele vai desabar com todos esses preguiçosos que ficam lixando unha nos gabinetes. Nossa equipe estimou em algumas horas, no máximo.

Por mais que o Capitão se esforçasse para retirar todos do prédio, os estalos que se ouvia dentro da estrutura eram cada vez mais frequentes, e as janelas quebradas e paredes descascadas deixavam o lugar cheio de remendos que só pioravam tudo.

Lá pelo terceiro ou quarto refém liberado, o Capitão me viu, estarrecido por um instante, e gritou para eu chamar os Bombeiros, o que só fiz na hora, dado o choque.

Quando era possível ouvir as sirenes, o Capitão se voltou para o capanga, ainda amarrado, agarrou-o pelo cangote e perguntou:

— Onde está a Mulher-Gato de Schrödinger?

— Você perdeu, Capitão. Deixe os adultos cuidarem... de tudo...

Deu um soco no rosto dele, ameaçou com uma faca na jugular dele, e repetiu a pergunta. Levando o Capitão mais a sério, respondeu:

— Ela... ela tá na estação de tratamento da regional norte.

— Que merda ela tá fazendo lá? — Aumentou a pressão da faca contra o pescoço dele — Responda!

— O dotô Correa faz parte da CPI que investiga as irregularidades da empresa de água. Encomendou um acidente para acelerar os trabalhos e tirar o Judiciário de seu pé! Quer aprovar nova concessão.

— Que tipo de acidente?

O homem não teve tempo de responder. O Capitão virou a capa, de camurça e bordado exclusivo do ateliê de Margarete Gregório e seguiu rumo ao próximo destino. Fui atrás dele, fascinado. Pediu um Uber, mas logo saiu dele: o motorista não quis levá-lo à estação.

— Muito fora de mão pra mim, doutor.

— Meu amigo, eu tô combatendo o crime, quebra essa pra mim.

— Não vai rolar, tô encerrando por hoje. Nem devia ter aceitado a corrida. Não quero terminar desovado na periferia...

Indignado, o Capitão chutou o pneu do carro antes de este ir embora, e ao me ver, balançou a cabeça, já se arrependendo do que estava prestes a me pedir, e dirigiu a palavra a mim, ao longe:

— Garoto, me empresta a bicicleta!

Subiu nela, e quando me neguei a ficar ali sozinho, levou-me junto. Não havia tempo a perder, e ele não cogitou me deixar em casa. Fui junto. Decidi aproveitar a hora de dormir estendida que meu pai me concedia naquele momento, como o paladino da justiça. Ou um excêntrico qualquer exercendo ilegalmente o trabalho de polícia, você decide.

Uns trinta minutos depois, chegamos à estação. Diante de um alambrado, mais um segurança. O Capitão lançou uma bomba de fumaça, imobilizou-o, jogou-o no chão e pegou a arma do segurança no coldre. Apontou a arma na boca dele e perguntou onde a Mulher-Gato de Schrödinger estava.

— Tem ninguém aqui, doutor. Só areia. Aqui é a bacia de tranquilização.

Será que ele chegara tarde? Pegou a bicicleta e decidiu ir até a parte da estação onde ficavam os tanques de cloração. Aproximou-se e foi recebido por tiros por mais seguranças. Ziguezagueando por um pequeno barranco próximo do alambrado que isolavam os tanques, acertou um no ombro e buscou abrigo em uma árvore. Quando viu o outro segurança procurando por ele, subindo pelo barranco, saiu detrás da árvore e deu-lhe uma coronhada. Foi até o primeiro segurança, alvejado, gemendo no chão, e perguntou:

— Onde ela está?

— Aaaaaghhhh...

Saltamos um grande tubo por onde parte da água passava, e seguimos por uma grande passarela que ficava entre dois enormes reservatórios onde a água era tratada, os decantadores. Ele tentava ordenar que eu ficasse em um lugar seguro, mas eu queria ver de perto o que ia acontecer. Será que minha mãe seria presa?

Em uma das passarelas adjacentes à grande passarela que percorríamos, encontramos vários capangas... e a Mulher-Gato de Schrödinger ordenando a alguns capangas o lançamento de algum composto químico.

— Joguem tudo, rapazes. Tudo!

— Fim da linha, Mulher-Gato.

— Nem pensar! Chegou tarde, Capitão.

Os capangas soltaram os enormes baldes com os quais depositavam algo que afetaria a água distribuída para a cidade inteira, e empunharam suas armas. Sem ter muito a fazer, o Capitão deitou a arma no chão, devagar, e colocou as mãos para cima. Escondi-me na lateral de uma das grades de contenção, em um ponto mais escuro.

— Eu esperava mais de você! Virou marionete de político agora?

— Não, Capitão. Eu tenho agenda própria, só convenci o idiota a me dar os recursos para meus planos.

— E que merda é essa que vocês estão botando na água?

De repente, o telefone dela tocou. Só era possível ouvir palavras dispersas como, "sim, ofereço coaching. Nada disso, acredite em seu potencial de apavorar as autoridades"; "não, não vou deixar vocês assumirem autoria do atentado"; "depois a gente se fala, aquele idiota apareceu aqui de novo, tô lidando com ele..."

Voltou-se para os capangas a seu redor, e gritou:

— Aí, pessoal. Podem parar de jogar o produto na estação. Recebemos uma oferta melhor...

— Não vão a lugar algum, Mulher-Gato. Já chamei a polícia.

Ficaram naquele impasse por alguns minutos, enquanto os capangas dela recolhiam os grandes baldes com algo que não informaram o que era e guardavam tudo, como se o capitão não estivesse ali. A polícia chegou pouco depois, e quando o comandante viu o Capitão Paradoxo, soltou um longo suspiro e ralhou:

— Você de novo? Olha, eu aliviei das outras vezes, mas eu vou te prender.

— Pelo quê, policial? Eles iam... envenenar a... — Apontava para ela, como uma criança querendo provar que não era culpada de algo.

— Não tô vendo nada suspeito aqui! Você está preso por passar trote.

O Capitão foi algemado enquanto a Mulher-Gato de Schrödinger passava livre por nós, com toda a falsidade do mundo.

— Chegou bem na hora, oficial. Esse desequilibrado invadiu nosso plantão, queria nos forçar a adulterar a água no solo com algum inseticida... fiquei com tanto medo...

— Sinto muito que tenha que passar por isso, senhora. Vou recolher seu depoimento e te liberar daqui a pouco.

Vi o capitão sendo arrastado até a viatura, indignado. Eu não entendia o que estava acontecendo.

Até que um dos policiais viu uma espécie de xarope escuro dentro das dezenas de baldes que os capangas iam jogar na água e perguntou a ela:

— Espere um pouco! O que tem dentro desses baldes?

— Ah, sim. É uma ação de marketing de guerrilha de uma empresa de refrigerantes. A gente ia misturar o xarope em quantia suficiente e produzir refrigerante suficiente para chegar a alguns bairros, para divulgar o produto.

— Sei...

— Temos até um site com essa ação de marketing, dá uma olhada. — Exibiu-o no smartphone.

— Bem, se tá na Internet, é verdade — Ponderou, mas completou — Mesmo assim, vou ter que te levar pra delegacia, também.

— Aqui está. A autorização do doutor Correa, nos dando acesso. — Estendeu um pedaço de papel dobrado dentro do decote.

O policial levou o dedo ao balde, experimentou, disse que era bem doce, que realmente parecia o que ela estava dizendo. E a liberou. Consegui vê-la sorrindo, debochada, para o Capitão Paradoxo enquanto ia embora para casa. Eu achei que ela não me reconheceria, mas quando os policiais perguntaram se alguém conhecia a criança, ela respondeu que sim. Retirou a máscara de couro de gato, espalhou os cabelos castanhos, quase ruivos, e disse como se fosse uma cena prosaica:

— Oi, filho! Nós vamos conversar em casa! Isso não são horas de ficar na rua... — Soltou uma reprimenda branda na frente dos policiais.

Já saindo da estação, entrando no carro da família, perguntei a ela:

— Mas... o papai... essa invasão de vocês... o que você queria fazer? Como ele nunca descobriu?

— É um acordo nosso: ele sai toda semana pro happy hour e aproveito para prestar consultoria para vilões de verdade enquanto você fica jogando Minecraft na casa dos amigos, salvando sua virgindade. Sem perguntas.

— Você podia ter matado muita gente... e se desse algo errado, sei lá, na reação com a água?

— Filho, você bebe suco de caixinha no café-da-manhã. Se aquela merda não te deu diabetes ainda, por exemplo, nada mais te adoece.

— E se descobrirem que você...

— Querido, quem ia acreditar numa dona-de-casa, voltando de uma festa à fantasia como eu? É uma forma de quebrar a rotina do casamento... — Ironizou.

Dirigiu em silêncio, e olhei pela janela, estarrecido diante do absurdo daquela situação. Papai tentou salvar o dia, e levou a pior. Como aquilo era possível?

— Mas mãe, se o problema é dinheiro... tem outras formas de conseguir, não precisa se meter com bandidagem...

— Júnior, eu tô sendo processada pelos estúdios da Warner por violação de direitos autorais. — Soltou um suspiro e completou — Eu precisava de grana rápido, então comecei a me virar.

— Bem, e o que vamos fazer com papai?

— Ah, até a cena na delegacia aparecer na próxima página do gibi, ele tá preso e solto ao mesmo tempo.

— Isso é o gato de Schrödinger e aquela teoria novamente ou você tá falando de decisões do STF?

Ela não respondeu.

No dia seguinte, fiz uma vaquinha online para pagar a fiança de meu pai. Mamãe não se deu ao trabalho de pagar a fiança. Disse que a ideia de sempre saber onde papai estava soava bem aos ouvidos dela.


Subscribe to the weekly digest of our best stories!

If you like this site, you should check out my other projects:


Login to leave a comment.
Success! Thank you for subscribing!