Ainda não

Um dia, terminei uma apresentação em um bar para quem está começando no standup. A plateia estava fria, o timing das piadas ruim e as referências não os empolgou. Nada pior do que perceber que, durante uma piada que ainda não se terminou de contar, não funcionou. Enfim, uma daquelas noites que confirmava tudo que a ansiedade pré-show insinuava.

Eu dera uma entrevista desastrosa no mês anterior, também. Na tevê, no Ultimate Roaster. Inventei de responder que era ateu, e até hoje recebo mensagens do mais autêntico amor cristão, dizendo que eu arderia no inferno. Tem patrocinador que ameaçou romper comigo. Dava para ver, pela cara do Chad, o entrevistador, o epic fail que aquilo foi. Mas azar, a merda estava feita. Pelo menos aquilo me manteria em evidência até eu conseguir melhorar meu material. Era melhor racionalizar a vergonha do que sucumbir a ela de vez.

A Sunset Strip estava cheia como sempre. Caminhei a esmo em meio aos neons, tentando dissipar a vergonha, por que passei, das piadas horríveis daquela noite. Até o momento em que passei por um hotel decadente da região. Uma mulher se jogou do, sei lá, décimo andar, e tinha mora boa: caiu bem em cima de mim. Bati a cabeça no chão do jeito certo. Morri na hora.

Um cara de capuz e foice, cujo sobretudo de camurça escura não combinava em nada com o clima abafado de Los Angeles daquele dia.

— Cara, o Halloween não chegou ainda — Ironizei com um filete de voz.

— Você precisa melhorar seu material, Joe.

Caraca, ele me conhecia.

Los Angeles era uma ilha da fantasia, em que o entretenimento fazia as pessoas nunca serem exatamente o que eram. Um pouco bêbado, olhei ao redor e me perguntei se eu havia parado na calçada da fama, cheia de ambulantes e daqueles atores desempregados infantilizando os turistas com fantasias de filmes famosos.

Definitivamente, não. Se fosse um ambulante com chapéu de alumínio e um carrinho de compras, coletando porcarias na rua, dizendo que a Terra era plana, já teria me tocado disso.

— Porra, velho. Tanto jeito de me levar pro além, e escolhe me esmagar com o corpo de uma maluca qualquer? — Protestei.

— Sabe como é, Joe... a economia vai mal. Terceirizamos.

— E como essa aí chegou a esse ponto?

— Efeito colateral desses finais felizes preguiçosos dos estúdios da cidade. Achava que a vida sem um homem não fazia sentido. — Cutucou o corpo dela com o pé, e disse — É, mortinha da silva. E aí, vamos?

Levei a mão à cabeça. Quer dizer, eu sentia minha mão fazendo aquilo, podia sentir até o sangue entre meus dedos, mas meu corpo permanecia ali, inerte, como se todos os meus membros fossem fantasmas. Ainda era cedo demais para mim. Empertiguei-me o melhor que pude, em meu corpo sem vida, e disse:

— Não. — Claro, respondi brincando, rolando a mulher para o lado, que ainda estava em cima de mim.

— Beleza, ano que vem eu volto.

— Como assim? Eu posso escolher? Todo mundo pode?

O sujeito estendeu a mão para um táxi parar, entrou e sumiu na noite.

Eu estava exagerando na bebida.

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Um ano depois

Confesso que meu material melhorou bastante, depois de encontrar o maluco fantasiado de Morte. A combinação de humor com lenda urbana acertou o público em cheio. Naquela apresentação, gastei tudo que eu havia preparado:

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"Já contei pra vocês que eu morri? [silêncio] Quer dizer, por quinze minutos. Os paramédicos me socorreram pouco depois, mas pouco antes deles chegaram, eu encontrei a Morte em pessoa. Um maluco encapuzado. Ela perguntou se eu tava a fim de tomar uma cervejinha com ele, e disse não. Respondi que tinha um show amanhã, que estava... morto de cansaço. [risos]

Ah, vocês riem? A família da moça que caiu sobre mim não achou graça. Aparentemente, o seguro de vida dela não cobria suicídios, certo? Foi o que perguntei à família. Quer dizer, eu tive que perguntar: as minhas contas no hospital continuavam chegando. O tio, um corretor aposentado, não soube me responder ao certo. Respirou fundo, pensou em como responder, e disse que se matar de forma premeditada é um risco excluído nas condições gerais das apólices. Parei por um instante, olhei atentamente para ele e respondi: é como dar uma machadada no próprio carro, né?

Ele não riu. [risos mais tímidos]

Depois, li mais um pouquinho sobre o assunto, enquanto me recuperava no hospital. [silêncio] Ei, não me culpem! A tevê do hospital estava passando o Encontro com a Fátima Bernardes! [sim, boa parte do público era de turistas brasileiros, me julguem] Deve ser por isso que todas as consultas que marquei com o proctologista até hoje só tinham horários disponíveis pela manhã. Imagino que se o cara ficar com cagaço de levar uma dedada viril de outro homem, ainda na sala de espera, e ver-se entre entrar no consultório e ver os programas matinais da Globo na sala de espera... ele talvez não pense duas vezes antes de entrar. [risos meio forçados]

Mas tergiverso.

E o que descobri lendo sobre o assunto? A família só recebe a indenização... se o suicídio não for premeditado! Ou seja, você pode até se matar, mas... [pausa dramática e voz mais grave, cavernosa, gerada colocando-se a boca mais próxima do microfone] tem que parecer um acidente!

Isso me fez pensar nos tempos de Al Capone, das máfias daqui, da Terra das oportunidades. Não seria mais lógico eles terem trabalhado com apólices de seguro? Basicamente, o trabalho de um gângster está na essência do que as seguradoras sempre querem. Que tudo... [pausa dramática para a punch line] pareça um acidente.

Pensem bem: simular um acidente de carro, um cara triste com o término do casamento, um triste acidente em que ele escorregou da janela do quarto ou caiu de uma ponte às duas da manhã empurrado por alguém, com pesos amarrados nas pernas? Moleeeeeeza.... mas não, o velho Capone tinha que mexer com o imposto de renda. Se eu esqueço de declarar uma xícara de café na copa de casa, pago uma DARF. O Capone esquecia de declarar uma meia dúzia de barris de bebida alcoólica contrabandeada e a turma ficava, nooooooossaaaaa... faltam provas pra gente pegar ele, peraí, galera."

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Saí do palco ovacionado, e mal podia acreditar que aquele material lixo, vagamente inspirado no Rick Gervais, havia funcionado. Ou a experiência de quase-morte me fizera perder o medo de aprovação das pessoas, que me fazia perder constantemente o timing das piadas, ou o público havia bebido o bastante dessa vez. Nunca vou saber.

Saí do bar de standup e pensei em comer alguma coisa no caminho. Combinei com minha namorada na época para encontrá-la no Taco bell mais próximo. O tempo estava imprevisível em Los Angeles naquele dia, mas decidi ir a pé mesmo assim. De repente, o vento ganhou uma força e deve ter atingido quase quarenta quilômetros por hora. A alta placa do Taco Bell, prestes a chegar, se soltou e caiu a centímetros de meus pés.

Tomado por um mini-ataque cardíaco, de repente notei o encapuzado do ano passado ao meu lado, com a foice, admirado com o tempo ruim:

— É, meu amigo... andar pela rua tá perigoso, né? Coisas podem cair em cima da gente, e nunca saberíamos o que nos atingiu.

— Você... você de novo? — Perguntei, pasmo.

— Sim, eu disse que voltaria, ano passado. Lembra? Sou um homem... quer dizer, sou uma entidade de palavra.

Silêncio.

— Gostei do teu material novo, o lance de parecer um acidente...

— Você trabalha assim, também?

— Eu sou só um, não consigo estar em vários lugares ao mesmo tempo. Acidente o ser humano faz sozinho. Eu tento sempre inovar nas formas de levar os humanos pro além, mas a internet sempre vence... sabe como é, né? Os vídeos de fail, os grupos de Whatsapp...

— O que te faz pensar que um dia ou vou concordar, voluntariamente, em ir com você?

— Bem, eu tava aqui fora de bobeira, observando sua namorada te aguardando na mesa...

— E daí? Vai levar ela também? — Perguntei, com medo, a voz mais baixa, hesitante.

— Não, não... eu não levo trabalho pra casa. O sindicato cobraria pagamento de hora extra, já que tô trabalhando depois das dez... o patrão não ia curtir.

— E então?

— Parece que ela sabe da Natasha...

— Puta merda! Quem foi o desgraçado que contou? — Balancei a cabeça, tentando desfazer-me da surpresa e do fato de saber que eu estava muito ferrado — Não importa. Minha resposta ainda é a mesma. Não tô pronto!

— Beleza, campeão. Ano que vem a gente se vê.

E desapareceu, tão misteriosamente quanto apareceu. Respirei fundo, pensei em dar meia-volta e ir embora, mas deu para sacar que ela devia ter dezenas de prints comprometedores de alguém que quis me foder. Não saía do celular.

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Dois anos depois

A quantidade de shows aumentava. Era tentador pensar se havia uma relação entre as visitas da Morte ou a tendência em aumentar a minha autocomiseração para estranhos bêbados rirem de mim. Até notícias clickbait estavam entrando em meu repertório. Às vezes testava a aceitação das piadas mais vagabundas nos stories de meu Instagram. Até tentando ser engraçado, sem mexer com celebridades, as mensagens de ódio dos haters continuavam a chegar. Naquele show, eu estava com material novo:

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"A TMZ tá dizendo que eu não envelheço. Que, tipo, eu durmo no clorofórmio, ou peguei a receita de creme antiaging com o Keanu Reeves. Mas poxa, pro cara é fácil nunca envelhecer. É só não atualizar o hardware da Matrix dele. Ele pode, é amigo do Morpheus. Agora eu, por outro lado... se eu fico sem ligar meu computador por cinco dias, o Windows 10 me força a instalar 26 atualizações de uma vez só e fecha sozinho o rascunho de minhas últimas piadas que digitei por quase uma hora no Word sem salvar. [risos esparsos]

Para minha namorada... quer dizer, ex... por outro lado, eu era mais como o Benjamin Button: quanto mais tempo o namoro durava, mais imaturo eu parecia. Até o dia que ela descobriu que eu voltei... digamos... pra fase oral. E não foi com ela. Aí tudo acabou, nós brigamos, o namoro terminou.

Sinto falta dela... [pausa dramática] Ela não deixou a Netflix logada e esqueci a senha. [risada de alguns homens] "

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Depois de deixar o palco, levei cerca de meia hora para conseguir sair da casa de shows, dando autógrafos e tirando fotos. Peguei um táxi, cheguei a meu apartamento, fui jogando as roupas pelos cômodos da casa e, prestes a entrar no chuveiro, pelado, vejo o maluco de sobretudo e foice diante de mim.

— Caralho, meu! — Pulei para trás, depois de um baita susto.

— Saudades?

— Não dá pra te entender. Gente atormentada, como a pobre moça que quase me matou aquele dia, imploraria pra ter a oportunidade que eu tive. A Morte perguntando se eu gostaria de ir ou não. Vai procurar alguém mais interessado...

— Vai esquecer dos amigos, agora que ficou famoso?

— Amigo é meu pau, que mora ao lado do meu cu e não me come.

— Então a resposta é não.

— Correto. Morrer sai caro, sabia?

— Vai usar esse papo de judeu pra cima de mim, cara? Engana outro... já vi seu holerite.

— Virou meu contador agora?

— A gente faz uma triagem antes de mandar as equipes recolherem as almas, sabe? Downsizing e tals. Quando o Titanic afunda, qual classe afunda primeiro?

— Tem algum pedágio lá em cima, por acaso?

— Vamos dizer que recebemos comissões.

— Então quando é que vocês se acabam de ganhar dinheiro? Em nações durante guerras?

— Temos um contrato de confidencialidade com algumas empresas por aqui. Antes a gente ia de porta em porta, até o século passado. Mas você sabe: sem televisão, sem internet, a turma só fazia procriar. Hoje em dia o esquema mudou um pouco: atuamos na parte de lobby de certas indústrias-chave no capitalismo. Um exemplo. O que é mais lógico? Barrar legislações no Congresso que dificultem o acesso a substâncias que matem milhões todo ano... ou bater de porta em porta, avaliando o quanto cada pessoa cagou com a própria saúde? Às vezes acidentes acontecem com os bem-intencionados...

— E pensar que levo processo só porque falo mal de celebridade...

Entrei na ducha sem dar mais atenção a ele. Quando fui me trocar no armário, ele já não estava mais lá.

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Três anos depois

Quando eu tentava contar, entre amigos, da Morte batendo à minha porta mais uma vez, ninguém mais me levava a sério. O que, pensando bem, devia ser positivo para meu trabalho. Fui anotando essas cenas e preparando material para os próximos shows.

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"Esses dias voltei de pileque pra casa. Um lance estilo 'Se beber não case'. Antes de tomar meu banho e ir dormir, encontrei um cara de sobretudo preto, querendo me levar dessa pra melhor. Porra, você de novo, perguntei com meus botões. Onde estavam as Testemunhas de Jeová batendo à porta quando se precisa deles? Enfim. Os amigos começaram a achar que eu estava louco, queriam que eu buscasse ajuda médica.

Mas acho que eu ficaria louco de verdade sem uma cervejinha no fim de semana. Entre ver um cara encapuzado dizendo que vai me levar e fazer a declaração do imposto de renda sem ouvir vozes, o que vocês preferem? Já tentaram lavar a roupa sóbrio? [uma risada solitária]

Eu li uma vez que os monges de algumas ordens religiosas tinham o hábito de lembrar, uns aos outros, que um dia iriam morrer. Faziam isso com a expressão latina memento mori. Sei lá, velho: se eu passasse o resto da minha vida sem acesso à pornografia e tivesse de me contentar em ouvir todo dia beatas reclamando do marido que não dá a mínima pra elas, acho que eu também ia querer que alguém me lembrasse disso a toda hora. Tipo, velho, me leva logo daqui, não aguento maaaaais! [alguns risos]

Às vezes recebo presentes das empresas pra eu fingir feliz nas redes sociais que o produto delas funciona. E que nenhum deles vem com obsolescência programada para me manter endividado com eles para sempre. Mas sabem o que nunca fica obsoleto? Cerveja. Fico de porre igual, desde o início dos tempos! Passo vergonha igual, como mulher feia igual, falo merda que me faz perder patrocínio igual... porra, eu preferia receber presente é desses caras. Caguei prum celular novo ou uma camiseta que vai desbotar na terceira lavada. Aí, Brahma... esse fim de semana tenho um churrasquinho pra ir. Qualquer coisa, é nóis... [faz gesto de gancho de telefone]

Mas mesmo depois de todos esses anos, os amigos ainda não acreditam quando afirmo que a Morte me visita uma vez ao ano. Falam que é coisa da idade, que mais pra perto dos quarenta a gente pensa mais nela... bem, é um bom argumento. Mas falho. Agentes funerários pensam nela todo dia, e não importa a idade deles. Envelhecem igual. Sempre que vou a um enterro, pelo menos um deles parece o Tropeço da Família Addams.

Aliás, já repararam como a Família Addams é uma das criações mais geniais para se burlar censura na tevê? Você fala de morte o tempo todo, e a censura daquela porra era livre, quando eu era pequeno. Uma das crianças Addams tá brincando com armas brancas antes da hora do almoço? Beleza, são só crianças. O Tio Chico pediu ajuda pra desovar um corpo? Família é pra essas coisas... loucura, né? [alguns risos] Agora, se eu tento explicar pra uma tia minha no Whatsapp que ela tá compartilhando fake news, e que a mamadeira de piroca, talvez, um chute no escuro meu, talvez não seja verdade... noooooossa, é terceira guerra mundial no meu celular."

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Terminei o show e combinei de encontrar uns amigos em outro bar na Sunset Strip, para um aniversário. Comecei a me perguntar se a vida era mais do que aquilo, contar piadas de quinta série para estranhos. Peguei meu carro, já que o lugar era meio longe, e dirigi pela avenida, distraído.

Até que um carro entrou do nada na contramão, saindo por trás daqueles cones gigantes perto de um retorno, e me acertou de frente. O airbag do outro veículo estourou, a adrenalina disparou em meu corpo, e saí do carro, as pernas tremendo, ver o que aconteceu. Fiz menção de abrir a porta, mas recuei, assustado. Peguei o celular e liguei para o 911. Contei o que acontecera. Chamei pelo motorista, para ver se ele estava consciente. Coberto pelo air bag, ele estava ensanguentado, caído sobre o volante, e levantei a cabeça dele para trás.

— Xi, esse não teve a menor chance.

Era ela de novo. Saltei tão alto que quase caí para trás.

— Puta merda! Que susto, não faz isso!

— Esse aí nunca mais vai se esquecer de botar o cinto...

— Me deixa em paz, merda!

— Podia ter sido você, né?

— Muito engraçado...

— Você é ateu, né? E aí, rezou?

Furioso, ignorei-o e sentei-me na calçada para tentar me acalmar até a polícia chegar. Na verdade, eu tinha a sensação de que não deveria sair naquele dia, que deveria ficar em casa depois do show. Mas estava uma noite agradável, queria me divertir com amigos, e ficariam chateados se eu furasse novamente. Aí aconteceu esse acidente. Será que o cara dormiu ao volante? Foi muito rápido, ninguém invadiria a pista como ele fez, numa situação normal.

O cara bateu a cabeça do teto com muita força, e eu temia que ele tivesse fraturando a coluna.

Após me acalmar um pouco mais, fui até o cara, pedi para ele acordar. Com uma dor muito forte nas costas, o cara começou a balbuciar, pedindo pela intercessão de Deus e pedir o seu socorro. Fui com ele ao hospital para fazer diversos exames e os médicos constataram uma explosão da vértebra L1, com fragmentos de ossos espetados na medula e a fratura da vértebra L3, ambas da coluna lombar . Os médicos foram sinceros comigo e consideraram que o homem não voltaria mais a andar. Já consciente, ele se recusou a acreditar; jurava que, apesar do diagnóstico, afirmava sentir os pés. O técnico da tomografia dizia que era impossível alguém com a medula naquele estado estar sentindo qualquer coisa da cintura para baixo.

Tentaram restaurar a coluna dele, e foi submetido à primeira cirurgia de alto risco. Após a cirurgia de 8 horas, o cara pegou uma infecção grave, uma bactéria resistente à antibióticos estava no sangue, e os médicos deram a ele apenas mais oito horas de vida. Eu estava cansado, esgotado emocionalmente, mas ele não desistiu de aguardar um milagre. Mesmo diante do desespero ali, orou mais e clamou pelo sobrenatural de Deus.

Pensei em meu juntar a ele, mas algo me deteve. Decidi confiar na equipe médica.

Em certo momento, o Espírito Santo revelou a ele que Deus tinha planos para a sua existência e que ele não morreria. Então ele sentiu uma paz muito grande e se sentia preparado para enfrentar o que quer que fosse. Foi então que, quando eu esbocei um fiapo de esperança, já ajudando-o a manusear uma Bíblia que um parente dele deixou com a gente, mais um obstáculo: uma osteomielite, ou seja, uma infecção gravíssima nos ossos, que a medicina ainda não tem cura. Também foram constatados que os tecidos em volta das vértebras e quadril estavam necrosados e cheiravam mal. Pediu para que eu abrisse a Bíblia em Filipenses, capítulo quatro, versículo treze.

Levaram-no do quarto para passar por mais duas cirurgias de alto risco, e já adiantaram que ele precisaria fazer alguns meses de fisioterapia para reaprender a sentar e andar. “Para honra e glória do Senhor, não precisei fazer fisioterapia. Ao me levantar da cama, o sobrenatural de Deus revigorou meus músculos das pernas e eu sai andando pelos corredores. Todos ficaram perplexos, principalmente o fisioterapeuta, pois, segundo ele, ele levaria de três a quatro meses para caminhar perfeitamente.” Depois deste episódio, ele precisou ainda sofrer mais duas cirurgias para a cura da osteomielite e retirada dos pinos colocados em sua coluna, o que causava muitas dores na coluna.

Hoje estou curado, ele me dizia ao telefone, quando me agradeceu pela ajuda durante o acidente. Dizia agradecer a Deus pelos milagres, pois nunca deixou de acreditar.

No início eu não quis, mas ele me convidou para ir aos cultos da igreja dele. Era tão inexplicável a recuperação dele, que não tive escolha a não ser acreditar naquela força sobrenatural. Senti-me culpado por algumas ciosas que eu dizia durante as apresentações, e meus excessos me traziam um remorso enorme, uma profanação com meu corpo, que me fazia buscar algum tipo de remissão. Eu me sentia culpado pelo acidente.

Novamente, a meu lado, reapareceu o cara de sobretudo preto.

— Você não respondeu à minha pergunta.

— Sim... pode me levar.

— Simples assim?

— Sim. Agora acredito no meu Senhor, nada tenho a temer.

— Muito bem. Fez a escolha certa, meu caro. Abaixe a cabeça, sim?

Fiz o que ele me pediu, já convencido de que só eu poderia vê-lo. Engoli seco, suei frio, comecei a soluçar um pouco, engasgando em minha própria saliva, desesperado. Ergueu a foice sobre mim, fez mira em meu pescoço.

— Sério que você ainda usa esse clichê?

— Eu gosto de tradições...

A foice ainda erguida ao ar, despediu-se de mim, resmungou que não ganhava o bastante para fazer hora extra daquele jeito, voltou a foice para meu pescoço com tudo, e parou. Parou a dois centímetros. Abri os olhos sem entender nada. A Morte tirou o capuz, e reconheci quem era.

— Olhe pra câmera, meu querido. Você caiu na nossa pegadinha.

Aquilo sim era compromisso com uma piada...

Aquele programa se chamava Ultimate Roaster. Era estilo o Punk'd, Balls of steel ou as pegadinhas sem noção do Silvio Santos. As pegadinhas eram organizadas com base em um desafio que o público fazia contra uma celebridade, sem que esta soubesse. E fora a minha vez. Filhos-da-mãe desocupados! Comecei a rir aliviado, o ator que se passou pela pessoa com quem me envolvi no acidente de carro e a mulher que se suicidou apareceu atrás da câmera, acenando com a própria mão e com a boneca de areia que parecia com ela, jogada do hotel para simular o suicídio.

O resto da igreja, e inclusive o pastor, todos figurantes, se levantaram para aplaudir e rir da minha cara ao mesmo tempo.

De repente, tudo voltou à minha cabeça. Eu havia declarado em uma entrevista que era ateu, graças e Deus. E resolveram transformar minha falta de crença religiosa em motivo de piada. Um desafio. Que, como comentei há pouco, era feito pelo público, exibido na tela do programa, sem que a celebridade soubesse. Meu namoro terminou por causa daqueles desgraçados! Perguntei ao Chad, que esse tempo todo personificara a Morte e cobria a boca para disfarçar a voz:

— Toda essa pegadinha foi elaborada só pra vocês me verem borrando as calças a ponto de me converter a uma religião?

— Sim. Foi lindo ver a sua reação. Era uma ação de marketing de uma seguradora, também. Vamos ganhar milhões com essa chamada: um ateu que se converteu! — E começou a rir sem parar.

— Seus malditos! Porque contaram à minha namorada sobre a Natasha?

— Nós nunca contamos a ela. Mas traições dão ibope, deixariam a pegadinha mais picante. Eu joguei verde, você acreditou, já tomado pelo remorso... aí o resto é história!

— O inferno deve ter lugares especiais pra gente como você — Alfinetei.

— Cara, foram quase três anos pra essa pegadinha ter um desfecho. Será que vamos entrar pro Guiness Book?

Envergonhado, saímos das locações externas, a igreja que a produção alugou só para a pegadinha, e fui para casa. Era bom os advogados da seguradora terem reservado um cachê para mim. Eu já estava cansado de contar piadas vagabundas em bares com cerveja barata. Não havia mais fronteira entre minha vida pessoal e o show business...


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