Armas com nome

— Isso é uma perda de tempo, senhor — Alertei ao Madeira.

A superintendência nos fez levar todas as armas apreendidas para um depósito e destruir todas com o rolo compressor. Procedimento de praxe, mas dessa vez até as armas de nós, policiais, entraram na pilha de metal escura necrosando em meio a outros pedaços já indistintos de ferro. Fiquei observando o rolo compressor esmagando tudo, soltando alguns pedaços de metal para cima, nos últimos espasmos daqueles objetos inanimados tentando resistir ao impacto. Como peixes fora d'água. Que era, de certa forma, como nós, da delegacia, nos sentíamos com aquela decisão do delegado.

Eu era acusado de conservador, diziam que o serviço público era outro, que eu precisava me adequar. Diante do sol escaldante, a obsessão do delegado em eliminar todas as armas que conseguisse. Nunca se perdoou por uma tragédia familiar, quando o próprio sobrinho encontrou a arma dele, guardada no quarto, durante um churrasco em família.

Eu me colocava no lugar dele, claro: quando se trabalha com bandido por tanto tempo, ficamos mais sensíveis para questões familiares. Mas as coisas sairiam de controle em pouco tempo.

Em vez de cumprir a licença médica, ou ao menos se afastar para não afetar as investigações que apuravam o fato envolvendo a arma dele, permanecia ali nos enchendo a paciência extraoficialmente. Sempre era o primeiro a reclamar dos novatos que chegavam à delegacia com sangue nos olhos, mas não era diferente deles.

Depois da tragédia familiar, moveu mundos e fundos para a secretaria abrir uma licitação e adquirir as armas da Daedalus. O arsenal adquirido pelo poder público possuía uma tecnologia que fazia com que a arma só pudesse ser operada pelo dono da arma. Leitores biométricos no cabo e no guarda-mato garantiam que a pessoa empunhando a arma era apenas a dona dela. Os dedos indicador e polegar são lidos ao mesmo tempo, e a arma só é destravada após confirmação de leitura de ambas. Cada disparo era registrado em um pequeno banco de dados, que era alimentado remotamente para a delegacia. Tudo cruzados com os dados funcionais de cada policial, ou seja, policial afastado ficaria suspenso, no banco de dados, de usar o equipamento.

As forças armadas viam a ideia com reserva e não adotaram a tecnologia de imediato. Embora sejamos um país pacífico, exportamos armas para o mundo, e a ideia de registros em que se pudesse consultar, com tanta precisão assim, as mortes realizadas por militares não agradavam líderes mundiais, então naquela época era uma tecnologia de nicho ainda.

Os debates no Congresso se acirraram rapidamente. A bancada da bala comemorava e tentava aprovar legislações mais favoráveis à chegada da nova tecnologia. A oposição, por outro lado, passou a cobrar que os dados de disparos por arma de fogo fossem divulgados no portal da Transparência. Uma avalanche de processos soterrou o Judiciário, com base nos dados que o portal, com muita resistência da bancada da bala, divulgava aos poucos de cada estado. Advogados, a exemplo dos processos contra operadoras de celular, passaram a ir às periferias de todo o país para caçar pessoas que se sentiam prejudicadas por abordagens policiais mais descuidadas.

Não demorou muito para o Madeira perceber que a ideia dele de trocar todas as armas do departamento pelas da Daedalus tinha implicações inesperadas. Naquele plantão, recebemos um chamado de um homem que foi morto com a própria arma. Entrei na viatura e fomos ao apartamento dele, com a polícia técnica já notificada. Chegamos lá e o picadeiro já estava armado: a perícia começando seus trabalhos, os curiosos ao redor, os depoimentos sendo recolhidos... levantei o cordão de isolamento e entrei no local. Peguei luvas de borracha com os peritos e abri com cuidado a porta do apartamento.

— Sem sinais de arrombamento — Falei para meu gravador de voz do celular, e continuei circulando enquanto um policial e um perito mais novos acompanhavam tudo em silêncio. Logo encontrei o corpo sobre o tapete diante da tevê e registrei — Tiro certeiro no peito. O corpo entrou em rigor mortis. Morreu há pelo menos quatro horas.

O policial mais novo, o Joel, apontou para mim a arma do crime. Estava do outro lado da sala, sobre o braço de uma poltrona. Observei-a atento com uma mão e acendi a lanterna com outra. Sem sinais de luta corporal, troca de substâncias, fluídos ou qualquer coisa que sugerisse manuseio recente da arma. Devolvi a arma ao policial, que não reconheceu de imediato o D estilizado que fazia parte da logomarca. Comparei a bala deflagrada com a arma. Saiu daquela arma, mesmo. Irritado em entender o que acontecera, praguejei:

— Maldição, é uma Daedalus!

O próximo passo era conversar com os moradores. Mandei o novato procurar por documentos, descobrir com o quê o morto trabalhava, se tinha parentes próximos, essas coisas básicas que ele já devia ter feito antes de eu chegar. Circulei pelos outros apartamentos daquele andar. Acordei vários moradores durante a madrugada. Como de praxe, não viram nem ouviram nada. Uma senhora do apartamento à esquerda contou que fez diversas reclamações ao síndico por causa dos horários que ele chegava em casa, às vezes gargalhando com amigos, especialmente mulheres. Um pai de família do apartamento à direita contou que não conhecia o homem, só sabia que ele se mudara fazia poucas semanas. E estava sempre tenso, desconfiado, não ia às assembleias do prédio e tinha horários estranhos.

Voltei ao apartamento do falecido; os outros estavam sem ninguém. Confirmei na portaria que os apartamentos vazios eram de famílias viajando ou imóveis sem locatários. Passei pela porta e notei que esta tinha uma fechadura digital, com senha. O apartamento não tinha porta-retratos, e o síndico, de braços cruzados do lado de fora, me confirmou que ele morava só. Comentou que ele chegava acompanhado com mulheres vulgares, falando alto, arrumando confusão. Prostitutas, supus. Comentou que era meio imaturo, e que as câmeras registraram que uma vez ele pegou o extintor de incêndio para levantar a saia de uma das moças com pó químico.

O policial novato me abordou e trouxe mais informações sobre o homem: era Rodolfo Tortorelli, auditor no serviço público. Confirmou que a arma estava registrada no nome dele.

— Tinha desafetos no trabalho?

— As mensagens no celular dele apontam que sim. Ele e um tal de Moreira trocavam farpas direto, tá tudo aqui. — Mostrou-me o celular e ouvi alguns áudios.

Ainda era preciso apurar melhor a história, mas provavelmente o homem estava apontando irregularidades em contratos da prefeitura, em particular no superfaturamento da construção de uma ponte. Seria um caso de grande repercussão, a imprensa acabaria aparecendo a qualquer momento. Os jornais já falavam dessas denúncias, embora não citassem o servidor diretamente.

— Mais alguém sabe? — Perguntei.

— Não, senhor. Me reportei só pra você.

— Vamos manter assim. Manda a equipe do legista tirar o corpo agora! Encontro vocês na morgue em trinta minutos. — Olhei para o perito, meio nerd, de cabelos castanhos e encaracolados, com uma camiseta com referência pop, enjoado pelo corpo diante de si, talvez o primeiro que visse em campo, e acrescentei — E você, Frodo, leva pra mim o laptop do cara! Vamos periciar tudo.

Voltei à delegacia acompanhando pessoalmente o transporte do corpo. Deixei para o Madeira a pica de se explicar pros jornalistas, que apareceram tímidos, um após o outro, pouco depois de partirmos com a viatura. Ao chegar à morgue, cumprimentei o médico legista e informei que voltaria mais tarde, para uma análise preliminar.

Fui à minha sala com o Frodo, acomodei-o à mesa, ligamos o laptop e, depois de alguns minutos deixando-o fuçar na máquina, perguntei:

— E então, o que temos aí?

— Várias planilhas de gastos, arquivos PDF com legislações, as telas de alguns sistemas do governo abertas no navegador. Mas demos sorte, o e-mail pessoal dele está logado.

Abrimos algumas mensagens, pulamos as propagandas e havia uma cujo remetente era esquisito, uma mistura de letras e números que uma pessoa comum não usaria. Uma mensagem em inglês dentro.

— É um ramsonware.

— Não conheço essas gírias de gay, Frodo. Me explica esse bagulho aí.

— É um tipo de software nocivo que restringe acesso ao sistema infectado com uma espécie de bloqueio e cobra um resgate em criptomoedas. Se não pagar, arquivos podem ser perdidos e até mesmo publicados.

— Então vamos quebrar a proteção.

— Não é tão fácil, essa possui 30 dígitos, levaria muito tempo. Seria mais fácil pagar.

Levei as mãos à cintura e balancei a cabeça, tentando pensar no que fazer. Mandei-o verificar os outros arquivos, em busca de algo incomum. Senhas, informações de cartões de crédito, imagens, qualquer coisa. Voltei à morgue, e o legista informou que a morte era consistente com o ferimento à bala, sem nada que saltasse aos olhos.

Na recepção da delegacia, apenas a irmã apareceu para reclamar o corpo. Me contou que os pais moravam em outra cidade, que ele passara em concurso público fazia pouco tempo.

— Rodolfo sempre foi um cara certinho, não aceitava jeitinho pra nada na vida dele.

— Sabe se ele tinha desafetos, se ele se sentia ameaçado? — Perguntei.

— Ameaçado? O Rodolfo? Ele é... medroso, nem de viajar gostava.

— Vocês mantinham contato com frequência?

— Sim, ele almoçava em casa aos fins de semana. Reclamava muito do chefe, não concordava com uma indicação para conselheiro do TCE, escolha que o chefe tinha influência para decidir...

Ofereci um café a ela. A mulher estava muito abalada, tremendo um pouco, o cabelo bagunçado.

— Vim pra cá às pressas, pedi a uma vizinha pra olhar meu filho...

— Eu sei que é um momento difícil, senhora... mas precisamos reconhecer o corpo.

Engoliu um choro baixo e entrecortado, e me acompanhou. O legista levantou o lençol, e logo ela se afastou, confirmando com a cabeça. Acompanhei-a para oferecer um café, e o legista me chamou de volta com o dedo. Acrescentou:

— Encontramos algumas marcas de luta corporal nas mãos. Mas são antigas, de bem antes da morte.

Balancei a cabeça e voltei à mulher. Segurando o copo com as duas mãos, não queria me olhar diretamente.

— Sabe se seu irmão se envolveu em alguma briga recentemente?

— Não mesmo! Ele era tranquilo...

— Nós encontramos marcas de agressão no corpo dele. E a casa dele tinha uma fechadura digital, aberta com senha.

— Minha nossa, ele e o Agnaldo... será que... tem esse primo nosso, o Agnaldo. Dependente químico. Tá melhorando, mas... mês passado teve uma recaída, Rodolfo resolveu falar com ele, as coisas não acabaram muito bem... Agnaldo ficou dias sumido depois dessa briga. Encontrei ele numa boca dias depois, imundo. Rodolfo tem essa mania de querer fazer a coisa certa toda hora, e só piorava tudo. Não é à toa que ninguém aguenta ele às vezes.

Fiz as anotações em minha caderneta e dispensei a mulher.

Chegou a manhã, e lá pelas nove o Madeira apareceu. Praticamente arrastado pela imprensa, cobrou resultado. O que tínhamos não era suficiente. Joel, o novato, foi até o emprego do falecido, e voltou mais para o final da manhã. O chefe confirmou as desavenças, mas não confessou crime. Não havia digitais de outras pessoas no apartamento, e além disso o chefe tinha um álibi para o dia da morte; estava voltando de viagem a trabalho.

De novo estávamos na estaca zero.

O ramsomware era muito difícil de rastrear, e era uma teoria frágil. Qualquer pessoa poderia ser vítima de um ataque virtual daqueles, bastaria clicar em um link errado na internet. Reli o relatório da equipe que chegou ao local primeiro, e a porta não foi encontrada aberta, e como a fechadura pedia senha, tiveram que arrombá-la. Então ninguém poderia ter entrado. Só uma pessoa muito próxima da vítima, mas isso as câmeras do prédio descartaram. Os moradores não reclamaram do cheiro do corpo em decomposição, mas alguns comentaram ter ouvido um estampido, algo que parecia um tiro. Voltei sozinho ao apartamento em busca de uma nova teoria.

Contudo, me decepcionei com a equipe de balística, para lá e para cá, me dificultando a concentração. No caminho, liguei perguntando se haviam falado com o Agnaldo, mas ninguém sabia onde estava; outra recaída, talvez. Mas ficava a pergunta: Rodolfo teria arrumado a arma para se defender de Agnaldo ou sentia-se ameaçado por causa dos interesses que vinha contrariando em seu emprego?

Por sorte, Madeira gostava de holofotes, e grande parte da imprensa se concentrava na delegacia. Ele que ficasse enterrando o sobrinho diante das câmeras; pelo menos não atrapalharia as investigações. Verifiquei digitais no local, e procurei por coisas que poderiam ter passado batido. Abri gavetas, analisei objetos na cozinha, fui ao quarto, e nada. Tudo tão imaculadamente limpo que parecia suspeito. Falei com o síndico novamente, e ele me explicou que Rodolfo não tinha diarista. Chegou a oferecer-lhe o contato de uma, mas logo dispensou a ideia, ríspido, tenso, me contou o síndico. Como se tivesse medo de alguém.

Observei o trabalho da balística por uns instantes. As análises com aquelas varetinhas que indicavam a trajetória da bala confirmavam o que a perícia e o legista descobriram até então. Já que não havia ninguém que colocasse o assassino na cena do crime, decidi fuçar quem vendeu a arma a Rodolfo. Disparos acidentais eram comuns com a Taurus no passado, muitas décadas atrás. Mas isso era possível com uma arma que só disparava quando empunhada pelo próprio dono?

Era hora de pegar a Daedalus pela jugular. Revirei as gavetas mais uma vez, atrás dos documentos de posse da arma. Cheguei a encontrar o registro da arma de fogo, liguei para a delegacia e pedi a Joel para me repassar o número de série da arma que encontramos. Não batia com o número constante no registro em minhas mãos, embora o nome de Rodolfo estivesse no documento.

Agora eu estava diante de duas teorias: a primeira, de que Rodolfo teria adquirido nova arma, mas não tivesse documentação regular; e a segunda, de que algum problema no cadastro junto à polícia federal teria gerado disparo acidental de forma remota ou algo assim.

Fui à loja de armas e falei com o vendedor. Mostrei a foto de Rodolfo no celular e, desinteressado, disse se lembrar dele. Mostrei o número de série que encontrei no registro da arma, e ele confirmou que vendera aquela arma a Rodolfo. Para proteção pessoal, o vendedor lembrou-se de Rodolfo ter alegado, tendo apresentado a documentação necessária para compra.

Mais um beco sem saída. E Agnaldo era a única pessoa que eu ainda não encontrara, para afastar ou confirmar suspeita. Onde eu encontraria esse cara? Já que não era possível colocá-lo na cena do crime, deixei essa hipótese de lado e lembrei-me da fechadura eletrônica. Não é todo dia que se instala aquilo em prédios residenciais, que geralmente têm portaria, então o que levaria alguém paranoico o bastante para buscar segurança extra?

Pesquisei no celular as lojas na cidade que faziam a instalação do equipamento. Eu não teria tempo de bater à porta de todas, e nosso assassino poderia estar longe até eu terminar. Precisava ganhar tempo. Comecei com as lojas mais próximas ao apartamento de Rodolfo. Os vendedores não souberam me confirmar se atenderam-no. E ainda que eu recorresse ao circuito interno do apartamento, nenhuma câmera focava diretamente a porta de Rodolfo. Mas talvez tivesse registrado o prestador de serviço que teve de entrar para instalar. Corri de volta ao apartamento, solicitei as imagens e verifiquei, no livro de registro da portaria, a data que a fechadura eletrônica foi instalada.

Foi dois meses atrás.

Agora eu tinha uma janela de tempo. Perguntei ao porteiro:

— E a vítima recebia muitas visitas?

— Não, senhor. Era muito reservado, não gostava nem de ser interfonado.

— E este homem aqui? — Exibi uma foto de Agnaldo pelo celular. Obviamente, tinha passagem por pequenos delitos. Noiado era tudo igual.

— Ah, eu me lembro dele. Mas eu não quero problema, eu...

— Prefere ir à delegacia?

— Bem, eu... esse moço aí... deu a maior confusão uma vez. Falou que tinha marcado pra ver o seu Rodolfo um dia, aí não confirmei e deixei entrar. Levei a maior bronca de seu Rodolfo depois. A porta foi arrombada.

— E ele levou alguma coisa?

— Não, nada! Mas não conta pro síndico, senhor! Meu filho engravidou a namorada, preciso do emprego...

— Tá, tá, tá... — Virei uma folha do caderninho para verificar umas notas e perguntei por último — Ele tava com uma mochila ou algo assim?

— Ah, faz um tempo já... mas acho que sim. Tava nervoso, fungava muito o nariz, falava rápido...

Voltei à viatura e recapitulei o que eu tinha até o momento. Agnaldo esteve na cena do crime dois meses atrás. Em teoria, pela última vez. Foi embora sem levar nada, embora eu não pudesse provar isso. Contudo, poderia provar que... a arma, sim, a arma! Por mais que o crime estivesse cheio de becos sem saída, pelo menos a arma eu tinha. Se o registro de arma tinha um número de série, mas a arma encontrada na cena do crime tinha outro número de série... então isso significava...

Aquilo era possível?

Ele tinha mesmo conseguido aquilo? Ele tinha mesmo trocado as armas? Se o noia queria um ferro para os crimes dele, para arrumar dinheiro fácil, para quê se dar ao trabalho de levar uma arma e deixar outra no lugar? Enquanto eu dirigia a viatura, Joel me ligou:

— Doutor, temos novidades.

— Desembucha, Joel.

— Qual era o nome daquele suspeito que era parente da vítima, do caso do disparo acidental?

— Agnaldo, porque?

— Agnaldo Tortorello. Então é ele. Foi morto na boca.

— Merda! Tá, me aguarda na delegacia em trinta minutos.

Dei meia-volta de volta ao apartamento de Rodolfo e abordei o pessoal da balística, que estava quase indo embora, todos aqueles nerds com as malinhas e tudo o mais:

— Pessoal... dei sorte de pegar vocês aqui... — Fui até eles esbaforido, correndo atabalhoado da viatura.

— O que aconteceu, detetive?

— Uma... uma pergunta. É possível... uma arma Daedalus estar registrada... no nome de uma pessoa e ser disparada... remotamente... por outra? — Os três profissionais se entreolharam, hesitando em responder, e um deles disse:

— Em teoria, não. Mas ouvimos falar de casos em que a arma disparou sem estar empunhada pelo dono.

— E porque não me falaram isso antes, porra?

— Porque provavelmente é lenda urbana. A Daedalus não divulga dados, o lobby deles é forte nas polícias. O que sabemos é o seguinte: tem muita gente na internet tentando fazer engenharia reversa nessas armas, tentando encontrar formas de reprogramar a leitura biométrica e o acesso aos bancos de dados das forças de segurança.

— Certo, deixa eu... pensar um pouco. Tem um noia que entrou no prédio, levou uma arma mas deixou outra no lugar. Acha que ele tentou algo assim?

— É possível. Só que, claro, é uma prática ilegal, a Daedalus não certifica ninguém para isso. Por isso as armas são muito mais caras. Só a própria Daedalus faz esse cadastramento e cruza essas informações com dados das polícias.

— Acham que ele pode ter tentado vender a arma, sem saber ao certo o que estava fazendo?

— Bem, a Daedalus tem uma logomarca bem típica dela, mas um leigo não saberia disso. Se ele trocou as armas, pode ter acontecido o seguinte: ele tentou vender a arma, mas não transferiu a propriedade. Aí, o novo dono da arma tenta atirar, só que em vez de sair o disparo da arma que ele está empunhando, o disparo que sai é de outra arma, no caso, a que foi colocada no lugar da arma que esse suspeito, o Agnaldo, levou originalmente.

— E como isso seria possível? O comprador não perceberia isso rápido?

— A arma que Agnaldo deixou no lugar... provavelmente ele procurou algum hacker ou gente sem autorização para esse serviço. Aí a pessoa fez uma reprogramação no software da arma deixada no apartamento, para reconhecer o cadastro biométrico de Rodolfo.

— Assim, o gatilho seria pressionado em uma arma...

— ...mas seria outra que efetuaria o disparo. — Falei para mim mesmo, pasmo.

— Parece que vocês precisam encontrar esse Agnaldo, tentar ligá-lo à pessoa que fez essa programação clandestina...

— Agora é tarde, ele morreu. Minha teoria é a de que precisava de dinheiro, vendeu a arma escondida, provavelmente para alguém cometer um crime, teve essa ideia de reprogramar o cadastro biométrico da arma, mas as coisas não saíram como esperado.

Voltei à viatura, mas não me sentia satisfeito com a resolução daquele caso. Todo aquele trabalho para explicar o quê, uma comédia de erros? Decidi dar um pulo na boca, onde a perícia ainda devia estar examinando o corpo, aquela imundície de prédio cheio de viciado. Vi o cordão de isolamento, encontrei Joel e perguntei:

— Encontraram a arma do crime?

— Encontramos armas, mas só a que Agnaldo vendeu, pra liquidar dívidas com o tráfico. Testemunhas disseram que o traficante foi surpreendido por capangas de um rival, em disputa de território, mas a arma que Agnaldo teria arrumado para ele não disparou. Aí, o segundo-no-comando não teria deixado barato, e matou Agnaldo.

— Ainda há armas antigas, então...

— Sim, daquelas que qualquer pessoa pode disparar.

Nunca me senti tão vulnerável em minha profissão quanto naquele momento. Quem apertou o gatilho naquele caso não foi polícia nem bandido, foi algum hacker bem-nascido, fazendo um bico reprogramando armas de fogo. E agora nosso batalhão não tinha nenhuma arma das antigas, apenas modelos Daedalus.

Só o tempo diria se, com o tempo, começaríamos a ser caçados feito bichos pelo crime organizado. A tecnologia tentou dar nome à violência, mas apenas a terceirizou...


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