Capitão Paradoxo

Na antiga loja de HQs do bairro, havia raridades kitsch, ou no mínimo irônicas, que eu encontrava. Coisa de antes da internet, poucas informações. Adulto, fui visitar meus pais e a loja era agora um estacionamento. Eu queria perguntar ao dono quem era o autor de uma HQ em particular, onde eu poeria encontrar mais exemplares. Mas minha inquietação, como colecionador, ficaria sem resposta. Era um super-herói diferente de todos, meio metalinguístico, como o Deadpool. Este misterioso super-herói não chegava a quebrar a quarta parede, mas tinha um estilo mais, digamos, intelectual de salvar o dia.

Seu nome?

Capitão Paradoxo. O super-herói mais forte e fraco do universo!

Não chegava a ser uma ideia original: nos primórdios da tevê a cabo do meu bairro, eu assistia às Aventuras de Pete e Pete, e o homem mais forte do mundo figurava como precursor da ideia. O saudoso criador do Bob Esponja era produtor executivo, e tudo passou a fazer sentido quando descobri isso na Wikipédia. Mas o Capitão Paradoxo executava o conceito muito melhor, para mim. A história do gibi raro, que eu tenho até hoje, era mais ou menos assim, do ponto de vista do próprio capitão.


Um dia, fui trabalhar na redação de um famoso jornal de sua cidade. Começara como office boy, mas virei jornalista com o tempo. Começaram deixando-me responsável pela seção de horóscopo, mas logo me passaram para a seção de esportes. O prédio era decadente, sublocado pelo dono de um depósito local. Nos banheiros, os mictórios eram inutilizados, cobertos por papel de jornal. Ele até decorara a notícia trazida pelo papel amarelado: Manchester descarta Tévez no Real.

O diretor da redação andava preocupado, para lá e para cá.

— Mas que merda! Cadê os crimes nesse cu de mundo?, — esbravejava, ora batendo contra as mesas dos jornalistas, ora tomando seu enésimo copo de café.

Os dias passavam e os relatórios que o conselho da empresa traziam a ele eram cada vez mais desanimadores. As vendas dos jornais caíam a olhos vistos, o tamanho de cada edição foi diminuindo, e algumas edições chegavam aos jornaleiros sem certas seções, como quadrinhos, para economia com royalties ou com tinta.

— Seja criativo, Roy, seja criativo! Só fazem me falar isso, mas eu sei que vão botar no meu. — Falava para si, em uma reunião informal com os jornalistas que não estavam na rua atrás de notícia. — Vamos ser criativos, então. Jadson! — Berrou meu nome e prosseguiu — Você fica o fim de semana inteiro jogando essa merda de counter strike em casa, então deve saber como hostilizar pessoas armado. Bota um capuz e cometa um crime. Ligue pra redação quando arrumar uma carteira, uma bolsa, ou roubar uma loja. Enfim, roube qualquer coisa. Caguei, só preciso do clamor popular!

— Tá falando sério, chefe?

— Por acaso eu pisquei, porra?

Saí da reunião confuso. Será que ouvira direito, ou eram as noites em claro jogando no computador que me faziam começar a delirar? Fui para casa, sabendo que a ordem de despejo em seu prédio chegaria em breve. Precisava daquele emprego. Dividia o local com um amigo policial, que decidiu tentar a sorte na cidade grande com ele aos vinte e poucos anos. Sentou-se no sofá, contou o que acontecera no trabalho e o amigo respondeu:

—Pode dar certo.

— Tá mesmo cogitando essa maluquice?

— Eu nem sequer levaria munição da arma. Só faria um terror em pessoas comuns, você teria sua matéria e pronto!

— Tipo um Homem-Aranha às avessas?

— Agora que você disse, sim.

Peguei um caderno, anotei alguns pontos da cidade mais afastados das delegacias, com mais pontos cegos e aglomerações que facilitariam nos misturar à multidão, e começamos a esboçar os possíveis crimes. Tudo de menor potencial ofensivo, para não machucar ninguém. Nos próximos dias, estabelecemos uma meta simples: roubar três bolsas ou carteiras por dia, até as pessoas notarem aumento nos crimes e eu ter o que publicar.

No início, voltávamos para casa como um raio, logo após nossos expedientes, e comemorávamos. Reservamos um dos quartos só para os itens subtraídos, e comecei a esboçar as matérias, para o dia seguinte, em meu computador. Juntei levantamentos das delegacias locais, alguns depoimentos e fotos, e de repente eu tinha algo para mostrar ao Roy. Que me elogiava daquele jeito passivo-agressivo dele, quando me via zanzando pela redação:

— Até que você serve pra alguma coisa, garoto. Pra quem dava copy-paste em horóscopo, você tá indo longe...

Mas o burburinho no jornal logo começou, e comecei a descobrir colegas entrando na onda. Não fazia a menor ideia de como poderiam ter me visto, mas... bem, eu trabalhava com jornalista, um profissional abelhudo por natureza. Foi ingenuidade minha achar que nunca me descobririam. Mas muitos começaram a ficar aloprados; a Gina, do caderno de coluna social, começou a roubar carros das peruas que conhecia nas coberturas que fazia. Combinava com o valet, que provavelmente contratavam sem verificar antecedentes criminais, e os carros iam parar no desmanche mais rápido do que o tempo que aquelas senhoras levavam para aparecer dando oi para gente da estirpe do Amaury Jr.

O pessoal estava ficando descuidado, e quando Roy saía para resolver algum assunto fora do escritório, comecei a brigar com frequência com meus colegas.

— Porra, galera! A gente é jornalista, não bandido! Vamos parar com essa bagunça! — Exigi.

— Manda essa pra suas nega, Jadson! Todo mundo sabe que você começou a fazer notícia assim. — Um deles disse.

— Falou bem: no-tí-cia! Onde isso vai parar, gente?

— As páginas policiais estão bombando, nossas notícias voltaram a ser assunto de mesa de bar. Que mais você quer? — Outro argumentou.

Roy voltou no final do dia com a resposta. A recepção dizia que ele foi fazer uma visita a um gabinete, na câmara municipal. Mandou metade da equipe para o RH, mas quis falar comigo a sós.

— Você sabe que vou demitir todos esses idiotas, né, Jadson?

— Sim, senhor. Triste ver nossa redação virando um covil de ladrões de galinha.

— Não finja que você não deu ideias a eles, seu filho da puta! Eu devia te demitir também! — Levantou-se, serviu-se de uísque com pedras de gelo, servido de uma garrafa de vidro translúcida, apontou para mim com a mesma mão que segurava o copo, e continuou — Mas você está com sorte. O vereador... o Correa, ele tinha tudo pra comer meu rabo, exigir as matérias a favor dele que ele, digamos, patrocinou pra gente. Mas ele quer algo melhor, em meio a essa onda misteriosa de crimes. Melhor pra gente, o que faz todo mundo sair ganhando.

— E o que seria?

— Os crimes têm que continuar.

— O quê?

— Sim, vão continuar. Mas apenas nos currais eleitorais dos adversários dele!

Fiquei em silêncio. Tudo começou como ideia dele, e a coisa estava saindo do controle.

— Vai dar merda, Roy. E se alguém morrer no processo?

— É aí que você entra.

— Eu tinha entendido que eu ia apenas gerir os locais certos para a equipe cometer crimes, digo, gerar notícia.

— Sim. Além disso, você vai... combater o crime.

— Isso aqui não é uma história em quadrinho, Roy. Temos polícia, deixa com eles.

Olhei em direção ao meu leitor, e levei o dedo indicador aos lábios, pedindo para que ele entrasse na minha.

— Tenho tudo planejado, Jadson. Abra a caixa na mesa.

Aproximei-me da mesa, abri a caixa de uma famosa costureira da cidade, que fazia vestidos para as mulheres casadas com os homens mais poderosos da cidade. Pelo menos era o que Roy dizia. Tinha um uniforme verde e laranja, com um P bordado na lateral esquerda da costela, imponente. Um sobretudo, a costura em laranja. Soltei uma risada irônica e perguntei:

— Essa foi boa. E depois que eu detiver os criminosos, vou levar pra onde? Pra delegacia?

— Exatamente. Mas você não vai combater todos os crimes.

— Como assim?

— Só vai combater os crimes do curral eleitoral do nosso amigo vereador. A bandeira dele é a segurança pública. Quer usar isso para a próxima campanha.

Fiquei em silêncio, peguei a caixa, contrariado, e voltei para casa. Com meu amigo policial, decidi melhorar meu rendimento físico e treinar tiro no sítio da família dele. Algumas semanas depois, sentia-me mais preparado. E voltei à redação. Eu não tinha acesso à frequência da polícia para saber onde procurar os possíveis locais de crime, mas tinha os meus colegas jornalistas perturbando a ordem pública, bancando os ladrões de galinha, atrás de notícia.

Os mais velhos deles, sem energia para aquela maluquice, ficavam na porta da delegacia, mesmo. Esperando os bandidos mais fuleiros para entrevistá-los. Brigas de casal, embriaguez, surtos psicóticos, a vida deles era se meter com essa gente após a lei prendê-los.

Acompanhei a pauta da próxima edição, andando pelas baias e ouvindo as conversas ao pé do ouvido, e sabia exatamente onde combater o crime.

Capitão paradoxo entraria em ação.

Comecei pela região central. Passei a primeira manhã batendo em batedores de carteira, imobilizando viciados roubando som de carro, essas coisas. Amarrava-os no poste mais próximo, amordaçados, e partia para o próximo crime. Coisas mais complexas, como traficantes e sequestros, começaram a aparecer. Nessa primeira ocorrência de sequestro, reuni informações do local onde a pobre moça fora levada pelos bandidos, perto de casa, e parti em busca do cativeiro. Quando eu me dirigia a um popular para pedir uma carona em seu carro ou mesmo para entrar em um ônibus, muitos julgavam que eu estava indo a uma festa à fantasia. Levando em conta a placa do veículo, algumas imagens de câmeras do comércio por onde o veículo de fuga passou e presumindo que o percurso evitou as avenidas principais, foi possível estabelecer um ponto de partida, e fui para lá.

Entrei sozinho no prédio, um galpão abandonado, mas com aquele uniforme horroroso, logo fui visto e a troca de tiros começou. Flanqueei pela direita e encontrei um ponto cego onde apontei a arma para as costas de um dos bandidos, e peguei a arma dele. Peguei a algema da cintura para prendê-lo, enquanto o outro tentava fugir, e informei que ele estava preso.

— Preso? Mas você não é polícia!

— Estou do lado da lei!

— Vou te processar, maluco! Acha mesmo que pode sair por aí, se metendo nos meus trampo assim? Sequestrei a moça com meu esforço e trabalho, e você vem me dizer como fazer meu trabalho?

Levantei-me e empurrei-o para fora dali enquanto esperava a polícia.

— Cala a boca, vagabundo!

Logo as viaturas chegaram, após minha ligação. Os policiais nos viram, conversaram algo entre si, e em vez de pegarem o homem, um deles foi ao meu lado e me imobilizou torcendo meu braço. Ajoelhei-me no chão e perguntei:

— Que merda é essa? Ele que sequestrou a moça!

— Quem você pensa que é pra fazer trabalho de polícia? O Batman?

— Não, vocês não podem me levar! Eu fiz o trabalho de vocês.

— Não tô vendo nenhum distintivo, e você, Gouveia?

— Também, não — O outro policial respondeu, em escárnio — Maluco, na nossa quebrada você não vai bancar o Braddock não. Circulando!

Era possível ouvir a moça gritando, pedindo por socorro, ainda amarrada dentro do galpão, mas os policiais estavam concentrados em mim e no bandido. Fui levado à viatura. Achei que iam levar o sequestrador comigo, mas ouvi a seguinte conversa:

— E você, vem com a gente também.

— Não, senhor. Sou trabalhador. Faz isso não. Aqui é área do doutor Correa, ele disse que não dava nada não.

Os policiais se olharam.

— Vamos ter que te levar, fera. Na área do doutor você não tem autorização pros seus rolos.

E o jogaram ao meu lado, dentro da viatura. O cara foi falando sem parar, insistindo que foi um mal-entendido, enquanto dirigiam. Em um momento, disse:

— Senhores, meu trampo era só pra alimentar as páginas policiais. Foi tudo combinado com a moça, relaxem. Fui contratado por um jornalista, o...

Fiz um som de chiado, olhando nervoso para ele, para que ele calasse a boca, e atalhei, falando mais alto.

— E a mulher, não vão soltar ela? — Gritei.

— Ah, é verdade — Um dos policiais disse, como se fosse um lapso de memória prosaico. Deram meia-volta, cortaram a corda que mantinha a moça presa na cadeira, e esta se soltou, apavorada. Dava para ver da viatura. Não ofereceram carona a ela.

Antes de voltarem da viatura, informaram à base do ocorrido, pelo rádio, receberam uma instrução e tiraram o bandido da viatura para falar com ele a sós. Ao longe, deu para ouvir uns trechos...

— Truta, agiliza pra gente um 121 na quebrada do doutor Bismarque. Tem um indigente guardado na delegacia pra isso.

— Não vai dar, senhor. Tô em condicional, estão fungando no meu cangote faz meses...

— Relaxa, a gente alivia pro seu lado. Pra sorrir, tem que fazer a gente sorrir, certo? O doutor quer desapropriar todo mundo num terreno da quebrada dele. Especulação imobiliária, quer vender. Mas, se um acidente acontecer lá perto, o valor da propriedade pode despencar. Propriedade mais barata é menos dinheiro pra reeleição dele, sacou?

Depois disso, perceberam que eu os observava, falaram mais baixo e vieram de volta à viatura.

A pobre mulher, tremendo, apavorada, pediu por uma carona. Um deles se aproximou dela e falou:

— Se você tivesse na cozinha, isso não tinha acontecido.

Fecharam a porta da viatura, ligaram o motor e pensaram um pouco. Olharam entre si, me observaram no banco do carona e disseram para si:

— Melhor não sermos vistos com ele, né? Nas redes sociais tem gente que gosta dele, compartilha foto... vai chamar atenção demais pra gente.

Um deles abriu a porta do carona, soltou minha algema e me mandou ir embora. O bandido estava sem algema fazia tempo, e ofereceram uma carona a ele. Seguiram viagem, o bandido debruçado pela janela, como se estivesse em um passeio, e eu diante da mulher loira e descabelada. Ofereci-me para levá-la para casa.

Caminhamos até um ponto menos ermo do bairro periférico, ela lavou o rosto em uma torneira de um prédio vizinho, e tentei puxar assunto:

— Você tá bem?

Pegou uma toalhinha da bolsa, secou o rosto, penteou o cabelo, e o semblante desesperado, de quem esteve diante de um trauma, se desfez em uma velocidade que me assustou.

— Estou. — Soltou um sorriso de galhofa, mostrou uma GoPro escondida na bolsa, e prendeu o cabelo em um rabo-de-cavalo.

Que diabos estava acontecendo?, me perguntei. Logo ela respondeu, talvez me achando idiota naquela roupa e, por tabela, me considerando inofensivo por causa disso.

— Eu tava quase cumprindo minha missão até você ferrar com tudo com sua fantasia de Carnaval.

— Quem é você?

— Eu sou... a Mulher-gato de Schrödinger. — Ela suspirou, talvez também achando o próprio codinome esquisito, e se justificou ao leitor, olhando pela quarta parede — Não me culpem, os roteiristas estudam física nas horas vagas.

— Você se deixou sequestrar pelos caras?

— Mais ou menos. Com essa modinha de milícia, decidi oferecer meus serviços na OLX.

— De quê, de ladra?

— Não, de donzela em perigo. Sou branca, linda, de classe média. Ofereço-me para ser abduzida pelo idiota que me pagar primeiro.

— Não tem medo de ser morta?

— Bem, você deveria... quem você pensa que é? Bancar o herói por aí e tals...

— Eu sou o Capitão Pa...

— Eu sei quem você é. A possibilidade de você aparecer e estragar tudo tá incluída no meu pacote. Vou ter que dar um desconto a meu cliente por sua causa, idiota! — E me empurrou, com as duas mãos, para trás.

— Eu só queria ajudar...

— Ah, você só queria ajudar... sim, parece uma atitude super lógica. Fazer o bem sem olhar a quem. Você não é daqui, né?

— Não, sou do interior. Tentando a vida aqui depois da faculdade.

— Chama pelo menos um Uber pra mim então, menino do interior. — Peguei o smartphone, fiz o que ela pediu, como se ela realmente mandasse em mim, e ela prosseguiu — Imagine o gato de Schrödinger. Em um paiol com pólvora. 50% de chances de viver ou morrer. Para a física quântica, antes que olhemos, o gato está em uma superposição. Está vivo e morto simultaneamente. Nosso ato de olhar força a decisão da natureza. Nossa curiosidade é que mata o gato. Mas veja só: também somos como o gato. Ou o gato morre e o vemos morto, ou o gato vive e o vemos vivo. Então, quem nos observa para forçar a natureza e colapsar em uma só realidade? Ou será que as duas possibilidades ocorrem um paralelo dentro de um multiverso de larga escala?

— Isso é uma analogia com a criminalidade aqui na cidade?

— Entenda como quiser. O fato é que temos um problema: o do colapso como a única realidade.

— Tô vendo que, com esse papo de multiverso, você vai virar aqueles personagens como os da Marvel, que morrem cinco vezes a cada década e acabam sempre voltando pra vender mais HQ, com esse lance de multiverso.

O Uber chegou.

— Acha mesmo que vou ficar tão popular assim? — Perguntou-me, já dentro do carro, esperando minha aprovação pela primeira vez desde que começamos a conversar.

— Acho difícil. Essa primeira edição teve pouco tiro, porrada e bomba — Lamentei-me, olhando para ela com carinho, insinuando um romance que não existiria porque eu provavelmente seria cancelado pela editora.

Dei duas palmas no capô do carro, e a Mulher-Gato de Schrödinger foi embora.

Ou ficou. Se você virar a próxima página, vai forçar a decisão da natureza.

Mentirinha. Vai encontrar apenas os créditos finais e a promessa de uma próxima edição, prometendo mostrar como o Capitão Paradoxo desmascararia a organização criminosa dentro do jornal em que trabalha, que ele mesmo ajudou a criar, que nunca seria.

Fim.


Ironicamente, o paradoxo de verdade foi chegar ao almoço com meus pais, reclamando da reforma da previdência proposta pelo presidente que eles próprios elegeram pelo voto, mas preferi me servir de mais uma porção de purê de batatas e não falar nada.


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