Dinheiro é tempo

Eu estava preso havia tanto tempo naquele prédio comercial, cercado pelas águas do oceano, que meu mundo passou a se restringir àquelas paredes, esquadrias e infiltrações que formavam uma espécie de caverna pós-apocalíptica. Não havia mais instituições, pelo menos não próximas. Bombeiros, forças armadas, nada para nos salvar daquele purgatório de concreto. Tudo era difícil de obter ali, e depois de todo aquele tempo vivendo ali, não sabia mais se meu pai ainda estava vivo.

A gente trabalhava junto na empresa de consultoria que tínhamos aqui, mas eu temia que ele tivesse sido pego quando o oceano finalmente reclamou para si mais de oitenta quilômetros de costa. A água turva atingia profundidades de até vinte metros em alguns pontos da cidade. E não era uma água estanque; já possuía ondas e os tubarões começavam a nos rondar. A natureza começava a se instalar. Na verdade, ela sempre estivera lá; decidira apenas voltar de férias.

Meu pai costumava dizer que tempo é dinheiro. Vivia para o trabalho, ficava às vezes até as nove da noite naquele prédio, e este agora parecia algo distante, antinatural diante da natureza. Me refiro tanto ao prédio quanto ao trabalho. Como trabalhar, isolado dali? Só para sobreviver. Todos os dias passaram a ser iguais. O mar era uma prisão a céu aberto.

Dentro do prédio, eu me sentia morando dentro de uma ocupação de sem-tetos. Ao descer com rede, para pescar, fechava a porta de meu escritório, improvisado como quarto, e passava por seguranças, de antes do dilúvio, que faziam bico cobrando moradores que pegavam coisas emprestadas de seus patrões, sou simplesmente roubavam, mesmo. Já vi brigas feias por causa de coadores e barras de chocolate, por exemplo. As mulheres se prostituíam em meio aos corredores escuros e úmidos, oferecendo seus serviços em frente às portas, algumas bem escandalosas. Algumas se viravam de vergonha quando estas apareciam, como que temendo ser confundidas com elas, ou que pensássemos que eram todas iguais. Havia uma frágil busca por dignidade ali, naquela parte do prédio. Havia ainda pessoas que se ofereciam para ouvir os problemas e anseios das pessoas durante os dias mais solitários. Estes trabalhavam em plataformas petrolíferas antes do dilúvio, então conheciam muito bem o poder esmagador da solidão.

Os pudores de antigamente se apagavam dos rostos das pessoas, conforme os recursos para se destacar tornavam-se inacessíveis. As pessoas andavam apenas de cueca enquanto suas poucas roupas secavam, após lavagem, em varais improvisados nas sacadas. Não havia tinturas nem maquiagem para as mulheres, e as opções de lazer para os homens, como esportes, aconteciam improvisadas nas salas maiores. Baias desocupadas eram improvisadas como traves de gol. E nos andares com os forros mais afetados, gangues de menores de idade se escondiam para preparar emboscadas e roubar a pouca comida que restava.

Quando eram capturados, eram lançados do vigésimo andar oceano adentro.

Evitávamos usar fogo: o forro era feito de material altamente inflamável e as portas corta-fogo foram improvisadas como jangadas. Apesar de só termos uns aos outros, ninguém se aproximava muito uns dos outros. Tínhamos medo de perder mais pessoas do que já tínhamos perdido, e as invasões de piratas eram frequentes. Aquele lugar nos endurecia.

— Vem, Manoela. Não liga pra ele.

Um homem, nos seus trinta anos, a barba escondendo quase todo o rosto, arrastava um cabo de vassoura com um balde, com dois olhos e um sorriso desenhados. Alguns enlouqueciam. Se recusavam a comprar ou vender algo, a ter contato com os outros.

Naqueles tempos, dinheiro era tempo.

Se eu quisesse jogar cartas, conversar ou usar a cozinha improvisada de alguém, o tempo era usado como unidade monetária. Olhando em retrospecto, quanto mais dinheiro ganhava, mais meu pai se isolava de tudo e todos. Aqui, isso é com o tempo. Às vezes eu subia no terraço e observava a imensidão do oceano nos aprisionando, os prédios como singelas estalagmites.

Charles me encontrou no terraço, aquele dia, e queria alguém para jogar cartas.

— Meia hora —, respondi.

Mas porque dinheiro era tempo aqui, eu me perguntei por muito tempo. Porque o tempo que eu dedicava a fazer uma atividade com Charles, por exemplo, era o tempo a que eu tinha direito quando eu precisava usar as poucas jangadas disponíveis para visitar prédios vizinhos para buscar mantimentos ou um passeio, do tipo ver o pôr do sol do cume de um dos morros. Ou ainda, o tempo a que se tinha direito para fazer ligações telefônicas, quando o sinal chegava das poucas linhas de transmissão que sobraram. Dessa forma, dinheiro era tempo. Tempo fora daquele inferno claustrofóbico.

Entregou-me um cartão com o tempo que solicitei, e assinatura dele. Fui à sala que funcionava como depósito do prédio, antes do dilúvio, e que agora era a moradia dele. Mantivemos a porta aberta, e ainda havia luz do sol para enxergarmos as cartas.

— Acha que a água vai descer um dia?

— Charles, não faça isso consigo mesmo. Essas perguntas...

— Talvez ela tenha sido levada pra um lugar seguro. Dava tempo das professoras levarem ela pro morro...

Ele nunca se conformou de não ter tido tempo de salvar a filhinha. Que estava na creche quando o dilúvio aconteceu. Não era o tipo de cara que conseguia ficar bem consigo próprio sem ninguém.

— Acho que a lojinha tem uma bonequinha da Frozen pra eu comprar pro aniversário dela.

Cada vez que ele gastava o tempo dele com coisas como comprar minha companhia ou tentar conseguir uma boneca para uma criança que devia estar morta fazia com que Charles nunca mais saísse daquele lugar. Não dava para todos irem embora, e o risco de as águas subirem mais e aquele depósito, onde estávamos, ficar submerso, era enorme. Sem tempo para comprar uma viagem curta de jangada, em busca de um prédio menos submerso, ele morreria ali.

— Antes do dilúvio, li uma vez que os chineses alugavam namoradas e amigos. Eu ri disso na época...

— É como se até nossa humanidade tivesse sido submersa. — Lamentei.

— Eu daria meus últimos biscoitos para ouvir música novamente. Ou ver algo bonito. Qualquer coisa que me tirasse desse lugar cinza por um instante.

Havia um mural no térreo, imponente, atrás da recepção. Era um prédio modernista, do começo do século XX. De vez em quando, alguns dos azulejos soltavam e boiavam. Sempre me batia uma tristeza ver aquilo. Comecei a guardar os cacos dos azulejos, ora azul, ora brancos, porque nunca se sabia quando eu precisaria cortar algo, e objetos afiados podiam ser úteis. Um doutor em artes, que passou pelo prédio uma vez, contou que o mural era de Athos Bulcão.

— Você se lembra daquele cara que veio parar aqui no prédio uma vez? O professor de faculdade...

— Sim, o de cavanhaque, né? O que tem ele?

— Ele me falou uma vez que nosso prédio parecia uma analogia do mito da caverna.

Silêncio. Apenas o ruído de passos dos moradores, das mulheres levando homens para seus quartos, de murmúrios, vozes abafadas pela complacência do mar.

— O pessoal que mora no antigo RH é melhor pra conversar, Charles. Sabem ouvir, têm conselhos bons, alguns eram psicólogos.

— Quero que alguém tão perdido quanto eu me ouça. Eles têm aquela voz mansa, pausada, de que tudo vai ficar bem. Era uma solidariedade forçada, um produto. Me davam nos nervos. E eu sei... eu sei que não vai ficar nada bem. Comigo, quer dizer. Eu sei que minha filha... eu só queria ver uma última vez. Antes de...

Silêncio. Charles estava me deixando preocupado. Embora nossa relação fosse comercial, eu gostava da companhia dele, mas dia após dia ele entregava os pontos, e falava da filha com um sorriso cada vez mais apagado, derrotado.

— Falei pra um deles do RH, uma vez, que ela devia me achar um idiota por achar que minha filha um dia voltaria. Ela disse... que ações intencionadas tornam real o poder sobre nós. E que colocar nos outros nossa possibilidade de ser feliz é uma solidão que aprisiona.

— E você concorda com ela?

— Cara... ela queria me consolar, por um lado foi bom ouvir aquilo. Mas só me fez perceber que estou em duas prisões. — Mostrei meu ás de espadas, ganhando a partida de truco, e reuni as cartas para embaralhá-las novamente — Minha ex-mulher está em Campinas, lá é seguro. O namorado dela foi junto, estavam de férias. Eu só tinha uma tarefa, pra fazer, e quando fui pegar a nossa pequena...

Eu ouvira aquela história muitas vezes. Não havia finais felizes naquele prédio. Despedi-me dele, monocórdio, e fiz uma pressão no ombro dele. Queria dizer que dias melhores viriam, mas não havia esperança ali. Voltei à minha baia e, dias depois, descobri que Charles foi vítima da gangue. Levaram quase todos os objetos pessoais dele, atacaram-no com o cabo de vassoura que ficava lá dentro e o algemaram dentro do depósito, contra a prateleira. Eu morava perto dele, dois andares acima, mas não ouvi-o pedir por socorro, em minha rotina. Foi uma época que a maré subiu bastante, e os moradores abandonaram seus apartamentos para os andares mais altos enquanto a água não baixava.

Vi toda aquela gente tumultuando ao redor de minha baia, sem conseguir dormir ao longo daquela madrugada. Uma hora desisti, e perguntei a uma das prostitutas, ressabiada em me ver:

— Você viu o Charles?

— Não, não vi.

— Tem certeza? Aquele do depósito, que falava da filha o tempo todo...

— Meu Deus, você não sabe...

Ela baixou a cabeça, derrotada, sem conseguir me consolar, e foi embora, cobrindo-se com a bolsa, fazendo um barulho infernal com aqueles saltos anabela que ecoavam pelo andar inteiro. O carpete original estava todo puído e descascado. Foi quando entendi porque não ouvi-o pedindo ajuda. Ele não tentou pedir ajuda. Não queria ser salvo.

Ninguém poderia salvá-lo de si próprio.

Juntei-me às pessoas fugindo de seu andar inundado, meio rabugento, sem conseguir dormir com aquela fuzarca. Sugeri improvisarmos um velório para Charles. Todos me ignoraram. A mulher que eu abordara pouco antes disse:

— Toda semana é um! Se velarmos todos, não fazemos mais nada nesse inferno!

O cara que arrastava a Manoela por toda parte, abraçado ao cabo de vassoura, cochichou algo ao balde que era a cabeça de Manoela, e disse:

— Temos que nos livrar do corpo. Se ficar lá embaixo, vai entrar em decomposição, pode transmitir doenças. O cheiro vai ser horrível depois que a água baixar.

Um rumor tomou conta da sala. A única forma de tirá-lo de lá, e dar o mais próximo possível de um enterro decente, era alguém mergulhar nas águas do andar de baixo, e partir as algemas com um alicate. Procurei pessoas para me ajudar, para segurar uma corda que me seguraria e me ajudaria a não perder-me no caminho. Usei a antiga mangueira de incêndio como corda. Tive que oferecer valiosos minutos em troca da ajuda. Lá se foi meu fim de semana para ver o pôr-do-sol no morro. Os desgraçados não conseguiam mostrar solidariedade nem durante a morte de Charles!

— E como você vai partir a algema?

— Deve ter um alicate lá embaixo —, alguém disse, em meio ao rumor.

Fomos mais para perto da escada de emergência, amarrei a mangueira ao redor de minha cintura, bem firme, dei umas puxadas para testar a resistência, e mergulhei, a água salgada irritando meus olhos. Os homens que toparam estavam preparados. Quando eu puxasse a mangueira, era o sinal para me puxar de volta.

Avancei água abaixo, com braçadas calculadas, sem tentar mexer os braços demais para não perder valiosa energia. Desci pelo percurso levemente serpenteado da escada, sentindo a pressão invadir meus ouvidos, e torcendo para meus pulmões darem conta do tempo que eu precisasse ficar submerso. Às vezes eu passava o dedo perto das narinas, para tirar o excesso de bolhinhas de oxigênio que faziam meu nariz coçar. Avancei por um corredor ao final da escada, entrei por uma porta à direita e virei por outro corredor à esquerda, uma lentidão claustrofóbica que me fazia perguntar, a cada segundo, se eu conseguiria voltar. Uma bolsa e outros objetos aleatórios flutuavam a meu redor e turvavam minha baixa visão ali. Faltava pouco para meu fôlego acabar, quando encontrei um pedaço do forro que cedeu, e levantei a cabela ali mesmo para obter um pouco de ar. Cheio de poeira, impurezas e fedor de urina de rato, mas foi o sopro de vida que garantiu que eu chegaria a Charles.

Recuperei fôlego, mergulhei novamente, e segui por outro corredor à direita, desviando de algumas portas abertas e uma mesa que boiou e bloqueou parte do corredor. Nadei por sobre ela, me espremendo pelo espaço apertado, e uma farpa grossa da mesa arranhou minha coxa. Torci para não pegar tétano e prossegui. Cheguei por fim à salinha do depósito. Minha entrada foi facilitada pelas dobradiças que a gangue quebrou, e deparei-me com o corpo inerte de Charles boiando, batendo no teto da salinha, o braço preso com a algema jazindo impotente, preso no armário. Olhei ao redor, procurando ferramentas que pudessem me ajudar. Encontrei um alicate atrás de um monte de peças quebradas, como braços de cadeira e tubos de tevê sem carcaça. Peguei-o, mas o alicante escorregou mais para trás do armário, e não tive escolha a não ser perder mais tempo escorando meu braço por trás do armário tentando pegá-lo. Eu poderia puxar a corda, voltar, terminar com aquele pesadelo salgado que irritava meus olhos, mas faltava pouco. Eu tinha que dar alguma dignidade àquele homem atormentado. Estiquei o braço com mais um pouco de força, resvalando meus dedos por saliências misteriosas, até que, com a pontinha da unha, senti o ponto exato em que o alicate estava, dei mais um impulso, e o peguei. Levei o alicate à correntinha da algema, e tentei uma, duas, três vezes. Mesmo com um objeto a menos de um metro de mim, a falta de gravidade debaixo d'água dificultava tudo. Tive que fazer mira, apertando o alicate até por fim acertar, e ouvir um barulho grave e sutil que me fez saber que a corrente se partiu. Era difícil enxergar com toda aquele sal da água. Escorei-me no braço do cadáver, fazendo-o descer um pouco, segurei-me à maçaneta da porta, empurrei-me com o pé de volta ao corredor, e puxei a mangueira de incêndio que fazia as vezes de corda.

Uma, duas, três vezes.

Perdi a esperança e simplesmente me segurei no corpo. Fechei os olhos e esperei pelo pior. Com um braço, segurei Charles; com o outro, tentava avançar pela água, mais devagar do que antes. O ponto com o forro em que eu conseguira recuperar o fôlego estava longe demais, e perdi a noção espacial necessária para encontrá-lo. Senti a água invadir meus pulmões, meu corpo sendo derrotado pelo mar.

Apaguei.

Senti uma pressão em meu corpo que fez a água, já dentro dos pulmões, ser expelida para fora. Engasguei, mas voltei à consciência. O homem, que fizera a pressão em meu peito, adiantou:

— Quero mais dez minutos! Salvei sua vida.

Tossi mais um pouco, sem condições de argumentar. Os homens levaram o corpo para a janela daquele andar, e o que me ressuscitou perguntou se eu queria dizer umas últimas palavras. Concordei.

Fui até a janela me encontrar com eles, o corpo de Charles sobre uma mesa, e eu fiz uma pausa. O que eu poderia dizer? Decidi guiar-me apenas pelo que eu sentia. Eram pessoas que não davam a mínima para Charles, mas eu queria que, mesmo ele estando no além, se sentisse lembrado ao menos mais uma vez em sua vida. Pigarreei e comecei:

"Charles era um homem de família. Digno, nobre, um grande amigo. A família era a vida dele, e não teve um dia, desde que veio parar aqui com a gente, que ele tenha deixado de acreditar que voltaria a vê-los um dia. Ele viveu no inferno, como todos nós, mas acreditava na redenção. Em um dia melhor. Ele me ensinou que só temos uns aos outros. Que não levamos nada dessa vida. Podem rir, mas mesmo quando o dilúvio me fez perder tudo, eu não entendia isso. Eu era vaidoso, queria privilégios aqui para, mesmo neste inferno, me achar melhor que os outros. Mas não Charles. Ele entendia como a gentileza, o gesto de dar, era mais importante do que tínhamos. Ele morava no menor quartinho do prédio, o mais perigoso, que poderia alagar a qualquer momento. A gente poderia ter botado algum morador mais novo lá embaixo, ele poderia ter hostilizado os que vieram depois, se achar no direito de ter alguma vantagem, mas não o Charles. Ele era melhor do que eu jamais serei. E vou sentir saudades. Adeus, meu amigo."

Em seguida, os homens pegaram o corpo, dele, e o jogaram ao mar com cuidado. E vi Charles se despedindo de nós, oceano adentro. Eu disse palavras bonitas que não atingiram o coração de ninguém daquela sala. Só pensavam em sobreviver. E exatamente por isso Charles era melhor do que todos eles: ainda era humano. Ainda escolhia amar sem ignorar todo o sofrimento pelas pessoas que perdeu.

....

Tinha dias que eu ficava muito tenso. O ócio estava me enlouquecendo. E procurei a prostitua, a mesma que me informou que Charles se matara. Precisava sentir o toque de um ser humano. Bati à porta dela, me atendeu, e logo quis me dispensar.

— Hoje não, amor. Tô sem papel-filme.

Aquilo era artigo de luxo, custava caro. Mas as meninas faziam questão de se proteger. Era impensável engravidar ali. Os caras mais velhos, que traziam presentinhos, às vezes elas deixavam penetrar sem nada, mas terminar fora, em cima delas. E, claro, se gabavam disso nas conversas no terraço, quando queriam se divertir e se reuniam com outros homens.

— Nem por três minutinhos a mais? — Insisti.

A maioria delas usava o tempo que ganhavam com a gente para visitar parentes que deixavam em regiões mais altas, menos alagadas, ou ainda para pegar uma jangada e procurar brechós para comprar roupas em prédios vizinhos e colher raízes e pós na vegetação rasteira das regiões menos atingas, para se pintarem ou perfumarem, então ela não resistiu.

Tiramos a roupa em silêncio e a penetrei enquanto ela me cavalgava na cadeira de escritório com um braço caído. Senti-me emocionado de sentir o cheiro de pele dela combinado com fragrâncias que traziam frescor ao corpo dela. Eu estava fazia tanto tempo sem saber o que era um banho de chuveiro que comecei a sentir meu próprio cheiro, combinado com uma grossa e pesada fuligem de sujeira que começava a se combinar em minha pele, como uma segunda pele. Às vezes minha pele chegava a irritar quando eu me lavava com a água salgada do oceano, cheia de algas e poluição, e àquela altura fiquei com asco do cheiro daquela água.

Senti-me dando uma fungada no paraíso. Abraçar-me naquele corpo feminino jovem, fresco e limpo era melhor do que o sexo em si. Aquele inferno estava roubando tudo de mim, até mesmo o prazer de exercer minha virilidade.

Envolvido no enlace com ela, enquanto eu a penetrava, notei que ela desviava o olhar de mim o tempo todo e não quis me beijar. Tentei uma vez, ela ainda em meu colo, levou a mão aberta à minha boca e disse:

— A boca é a única coisa que me resta.

Levantou-se no susto, revirou a sala cheia de pilhas de roupa e tralhas indistintas, achou um pedaço de papel-filme e enrolou em meu genital. Voltei a penetrá-la, e perguntava às vezes se eu demoraria muito. Mas logo me desconcentrei, lembrei-me do Charles, tirei-a de meu colo e soltei um soluço agonizante, curvado para frente, que logo se tornou um choro entrecortado.

— Preciso sair daqui — Eu disse.

— Então me pague antes.

— Não! Me refiro a este prédio. Não quero... apodrecer aqui.

Anotei os minutos, rubriquei, entreguei o papel e fui embora. A ideia ficou fixa na minha mente naquele momento. E não saiu mais.

Algumas pessoas conseguiam chegar à terra firme, mas precisavam economizar muitos minutos para alguém topar fazer uma travessia tão arriscada, cheia de piratas.

— Eu saí daqui uma vez — A mulher respondeu, debruçada à janela.

— E porque voltou?

— Não havia nada pra mim lá fora.

— Nada? Parentes, amigos, emprego...

— Ninguém quer nada com... alguém como eu.

Despedi-me dela com um beijo no rosto, recoloquei minhas roupas e voltei pensativo à minha baia. Determinado a buscar respostas, economizei meus minutos nas próximas semanas. Pulei refeições, deixei de procurar por sexo e fui notando que aquele prédio necrosava junto com todos nós dentro. Eu ouvia estalos no andar de cima, a tinta nas paredes descascava cada vez mais... mas eu ainda não estava pronto para passar a vida toda fugindo do mundo, como aquela mulher. Em breve ela daria um jeito de ir para outro prédio, pulando de galho em galho para fugir de seu estigma.

Quando juntei uns quarenta e cinco minutos, fui até o jangadeiro e pedi para me levar ao antigo prédio do INMET. Ficava perto da outrora Estrada velha de Jacarepaguá, mas nenhum ponto de referência conseguia se erguer em meio ao oceano. Apenas alguns navios abandonados, todos marrons, devorados pela maresia, davam pistas para onde eu estava indo.

Um deles estava com um barquinho, que fora descido, para um dos pesquisadores que se refugiavam ali estudar o comportamento do oceano.

Pedi para o jangadeiro levar-me até ele e, impaciente, respondeu:

— Seu tempo acabou.

— E como vou voltar?

— Caguei, amigo. Te vira aí.

— Te dou mais quarenta e cinco. Vai dar pra eu te ajudar com a pescaria, expulsar a gangue...

Ele pensou um pouco. Sabia que eu tinha razão: o peixe nem sempre dava para todos e a gangue hostilizava os moradores. Todos sairiam ganhando.

— Seu tempo já tá contando. Mexa-se!

Concordei com a cabeça e segui o resto do caminho nadando, mesmo. Alcancei o barco, esbaforido, e o pesquisador me observou intrigado. Estendeu o braço para eu subir no barco.

— Amigo, não temos mais vaga no cargueiro. Tá a maior confusão, a maresia tá enferrujando todo o casco, as infiltrações aumentaram...

— Não é isso.

— De onde você veio?

— Zona norte.

— Ih, estamos prevendo mar revolto para as próximas horas. Não devia ter saído hoje.

— Sabe se as águas vão descer um dia? — Perguntei, sem cerimônias.

Olhou para os dois lados, sentou-se no barco, terminou de recolher umas amostras e de fazer anotações, e me contou um segredo:

— Nossos cálculos sugerem que o mar deve recuar cerca de dois metros nos próximos dias. Nesse ritmo, seria possível voltar a ver o andar térreo dos prédios das regiões mais altas.

— Por que tá me contando isso?

— Pra você espalhar a palavra.

— E isso adianta de algo? A água deve subir de volta nos próximos dias, não?

— Bem, seria o tempo de as pessoas conseguirem fugir.

— E os tubarões? Nos lugares em que a água não baixar completamente...

— Tubarões? Com a alteração da maré, eles tendem a procurar outro lugar pra caçar. O que os atrai mais é a corrente de retorno, gerada por algumas estruturas da malha urbana submersa. O que deve ser atenuado pela redução da altura da água.

A ingenuidade dele me incomodava um pouco, mas ver o chão novamente era algo que eu começava a não esperar mais ver. Despedi-me dele e voltei à jangada. A porta corta-fogo, improvisada como embarcação, começava a enferrujar devido à maresia, e a vedação providenciada pelo jangadeiro me deixava tenso. Evitei olhar para baixo e fitei o mar sendo lambido pelo sol forte daquela manhã.

— Porque viemos até aqui? É super fora de mão pra mim, não tem mantimento, lojas, nada. —Queixou-se o jangadeiro.

— Nas conversas do prédio, os boatos diziam que tinha gente pesquisando o comportamento do mar aqui, então eu vim.

— Grandes merda. Alguma novidade?

— A equipe daquele homem... ele acha que o mar deve descer alguns metros nos próximos dias.

Eu esperava ver alguma expressão de alegria no rosto do jangadeiro, mas ele continuou remando em silêncio. Enxugou o suor na testa. Comecei a imaginar como as pessoas reagiriam no prédio. Os corredores sempre lotados, fila para tudo, a impossibilidade de encontrar algum cômodo em silêncio absoluto... aquela caixa de marimbondos finalmente veria liberdade novamente. Todos poderiam ver seus entes queridos novamente, usar as próprias pernas para ir e vir... claro, tínhamos as jangadas, mas eram poucas, e as viagens eram arriscadas. O risco de morrer por insolação ou ataque de tubarões era real; ficávamos perto demais da água. Evitávamos embarcar mulheres menstruadas, já que os tubarões farejam sangue de longe. Qualquer doente com ferida exposta, sangue coagulando pelo corpo, então... muito menos. Acabavam morrendo no prédio, mesmo. Chegar aos poucos hospitais de campanha improvisados era suicídio.

Mas em breve tudo seria passado. Minha vida, e a de todos, poderia se aproximar da normalidade.

Nós, os moradores do prédio, começávamos a notar o comportamento diferente do mar. As oscilações das marés, da altura das águas, mas logo minimizávamos aquelas observações. Era doído ainda ter esperanças naquele lugar.

Tentando me proteger um pouco do sol, cobri a cabeça com minha camiseta puída, imunda, a única que eu tinha. Virei-me a estibordo, observando o navio e o pesquisador se distanciando, pouco a pouco, enquanto o jangadeiro seguia viagem. Sem vontade de conversar com ela, fiquei ouvido os argumentos dele.

— Você vai contar ao pessoal do prédio o que acabou de me contar? — Perguntou.

— Por que não? Aquele lugar tá matando todos nós, pouco a pouco.

— Nunca parou pra pensar que eles poderiam ir embora quando bem entendessem?

Não entendi o que ele quis dizer. Não virei o rosto; coloquei os pés dentro d'água e observei-a correr. Ouvi, em fração de segundo, um objeto cortando o vento. Sem sequer tempo de virar a cabeça, o jangadeiro me acertou em cheio na cabeça, e caí no mar. Fiquei boiando ali enquanto ele se afastava. Agora eu entendia o que o professor, que foi parar no prédio uma vez, queria dizer com o mito da caverna.

Senti o sangue sair de minha cabeça e fitei o céu limpo, enquanto sentia o sol fritar minha pele e, pouco e pouco, os meus órgãos internos. Eu não acreditava no jangadeiro. Muitos no prédio não sabiam que podiam ir embora. Mas o mundo deles tornara-se pequeno demais. Sonhar que algo diferente pudesse vir depois daquilo era sufocante, arrebatador. Não sei se a prostituta preferia ficar ali por causa da vergonha ou por estar há tanto tempo ali, presa. Mas o jangadeiro devia ter motivações mais mesquinhas. Ninguém conseguia transporte para fora do prédio sem ele.

Eu era um idiota. Ao oferecer mais tempo, para ele topar me trazer de volta, eu mexi em um vespeiro. Dei ideias a ele. A gente nunca achou estranho quando a gangue matou o outro jangadeiro, tempos atrás. Parecia uma tocaia como todas as outras, achamos que queriam apenas levar os objetos de valor dele e pegar a comida que ele estocava, quando fazia frete. Todos nós estávamos tão ocupados com nossas solidões que não percebemos que aquele desgraçado estava nos prendendo lá.

Mesmo no inferno, sempre tem gente querendo ser rei, tirar proveito. E ele conseguia isso com o transporte que fazia: sempre havia mulheres desesperadas que dormiam com ele, quando ele se negava a transportá-las por causa dos tubarões e o faro por sangue deles. O que nem era tão verdade assim, como o pesquisador me revelou. Mas ninguém ousava se aproximar mais da água para fazer o tira-teima dos vultos que víamos debaixo d'água. E sempre comia coisas raras, como chocolate.

Mesmo com os olhos fechados, eu sentia o ardor dos raios do sol. Ninguém poderia me salvar. O jangadeiro esperou a gente se afastar o bastante de qualquer prédio com pessoas que pudessem nos ver. Sem mim, o despotismo dele poderia continuar.

Ouvi gaivotas. A consciência oscilava, se esvaía aos poucos. Vi meu pai. Minha mãe nos convidava a nos juntar a ela. Eu não tive um lampejo de todos os momentos bons de minha vida, como muitas pessoas alegavam ter, tão próximas da morte assim. Eu não me lembrava mais como era. Fechei os olhos. Cansei de estar naquela autofagia humana e não resisti. Esperei meu corpo ceder para me despedir daquele mundo.


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