Em busca da morte

Um homem imortal é um caixeiro-viajante. Vai passar toda a sua existência fugindo de um mundo que o teme. Quando meu segredo é descoberto pelas pessoas muita inquietação se instala nos lugares em que tento em instalar. O poder de regeneração de minhas células é fora do comum, mas mesmo assim adquiro os nutrientes necessários para isso através de alimentos comuns, como um ser humano normal.

Escondi-me em uma base espacial, e entrei em um foguete que faria manutenção na estação espacial internacional. Aguardei em um módulo do foguete, próximo a um acesso onde os mantimentos eram guardados, para liberação na superfície.

Tecnicamente, o suicídio era impossível para mim, na Terra. E não tinha estômago para isso. Então, no espaço, longe do tumulto e comoção que a ciência faria em meu corpo, tentei encontrar a mortalidade.

— Ei! Quem é você?

Fui notado bem antes do que pensava. O astronauta acionou as comunicações de seu traje, prestes a informar que havia um invasor no foguete.

— Escuta, não quero problema. Só... só me ajude a morrer. — Falei calmo, sereno.

Ele achou que eu estava louco, e pediu para que alguém da ala psiquiátrica da base viesse a seu encalço. Era óbvio que ele não me daria ouvidos, então tive que usar de força. Trouxe um aparelho que embaralhava as comunicações com a base, e um zunido agudo, seguido de um chiado, atingiu os ouvidos do astronauta em cheio. Ajoelhou-se no chão, em agonia, levando as mãos aos ouvidos.

— Diga à tripulação que tá tudo em ordem. Você só está ajustando as configurações de uns sistemas secundários. A contagem regressiva pode continuar.

Ele fez menção de resistir, mas apontei o dedo para o botão do aparelho, e cedeu. Falou no rádio para a tripulação prosseguir com a decolagem. Mantive o aparelho diante da visão dele, e aguardei a contagem, que era possível ouvir, precedida dos motores sendo acionados. Dez, nove, oito...

Partimos.

— Acho que gente querendo se suicidar na estação espacial é novidade para mim. — Ironizou.

— É o único jeito de eu me aproximar da mortalidade.

— Como assim? Por acaso você é imortal?

Concordei com a cabeça. Vi aquela mesma expressão de incredulidade que as pessoas sempre fazem, mas poucas vezes que tentei contar. A imaginação humana desaparece quando adultos.

— Se você é imortal, porque está aqui? Tem várias formas de resolver seus problemas na Terra...

— Era o que eu achava. Mas passei os últimos séculos sendo tratado como atração de circo.

— Séculos?

Comecei a contar a ele de minhas origens. Fazia tanto tempo que minha memória me confundia. Lembranças de um século se sobrepunham a de outro, não conseguia mais me lembrar se eventos ou objetos haviam sido inventados na época em que obtive determinava lembrança, e salientei tudo isso ao astronauta.

Mais para o final da Inquisição, eu já não lembrava ao certo como nasci, que mulher me trouxe ao mundo. Cartórios não eram exatamente algo fácil de se encontrar na época. Fugi por várias vilas no interior da Europa. Alemanha, talvez Espanha. Quando eu menos esperava, algum morador me denunciava à Igreja, e lá tinha eu que fugir novamente. Me acusavam de bruxaria. Ainda não haviam percebido como eu era longevo, mas minha saúde fora do comum levava-os a pensar que eu estava manipulando substâncias e contrariando a vontade divina neste mundo.

Na França, eu cheguei a ficar mais tempo. Com a barba espessa que eu tinha na época, consegui passar desapercebido por um tempo. Evitei as mulheres, tentando aprender uma das lições que as fugas anteriores me ensinaram: elas não são boas em guardar segredos, e te deixam mais frágil. De qualquer forma, não era uma boa época para amá-las: eram ariscas, o mundo não as considerava gente, e tinham que trabalhar muito duro para sobreviver.

Algumas décadas depois, os documentos que as autoridades locais haviam forjado para mim registravam que eu devia passar dos cem anos. As palavras dos idiomas dos outros países já não confundiam minha mente como antes, e pensava em francês. Mesmo assim, alguns achavam que eu tinha habilidades de encarnar espíritos. A sensação constante de visitante nunca me abandonou, mas já me misturava bem. Ao notarem minha idade incomum, novamente me denunciaram ao tribunal da Inquisição. Deixei tudo para trás e fugi de Paris. Faltava muito para a Revolução ainda, e o pão estava cada vez mais caro. Era comum encontrar pessoas sem energia, caídas no chão, literalmente morrendo de fome. Claro, eu precisava me alimentar, também, mas graças ao poder regenerador de minhas células, eu precisava de menos comida e minha aparência era muito mais saudável do que os pobres locais.

Eu comecei a receber visitas diárias de moribundos e doentes em geral, implorando por curas milagrosas. Nunca ofereci serviço algum como curandeiro, mas as pessoas não queriam saber. Acreditavam que havia algo de metafísico em meu toque, e havia dias que era impossível sair de minha própria casa, cuja entrada ficava tomada pela turba. Tudo que havia de metafísico em meu toque era o fato de usar sabão para me lavar, mas não entendiam. A imundície, o fedor, as doenças... era um milagre sobreviver na época. Para mim, ma maldição. As dores de doenças fáceis de tratar hoje eram horríveis, e como meu corpo nunca cedia a elas, devido à regeneração, a saída de Paris foi extremamente dolorosa.

Por vezes, tinha que procurar médicos no caminho. O tratamento era com sanguessugas e as cirurgias mais invasivas eram sem anestesia. Quando os hospitais notavam que eu sobrevivia às operações, faziam de tudo para me prender no local. Precisei fugir algumas vezes. E tudo piorava quando forças policiais apareciam. Quando conseguiam me atingir com precárias armas de fogo ou baionetas, viam o sangue se esvair de mim, mas se assombravam com o fato de que aquilo não me detinha.

Alguns, em terror, largavam as armas e eu partia para cima deles, aos socos, às vezes me apoderando das armas que abandonavam e hostilizando-os. Era aquilo ou ficar em um hospício, igual gado, o chão coberto de sujeira e feno, sendo alimentado uma vez por semana, punido com torturas ou algo pior.

Tentei a sorte na Inglaterra, e permaneci anônimo lá por um bom tempo. Com o dinheiro que consegui economizar, comprei uma pequena propriedade na chuvosa e úmida ilha. Plantei coisas simples, essenciais para minha subsistência, não vendia para fora, e as coisas iam bem. A casa era úmida, o tempo não passava nunca, mas pelo menos ninguém me perseguia. Até que a Revolução Agrícola finalmente me alcançou. Inovações como a mecanização das plantações e o crescimento das cidades tomaram de assalto os fazendeiros, e comecei a receber ofertas de comerciantes desesperados, precisando alimentar os cidadãos das metrópoles em expansão. Contavam que, na França, a coisa estava tão feia que a agricultura local não dava conta de alimentar todo mundo e as pessoas começaram a morrer de fome e a situação política se deteriorou. Nada muito diferente do que eu já encontrava por lá nos meus tempos, pelo jeito.

Observei vizinhos das propriedades a caminho da minha com inovações como a semeadeira de Jethro Tull. Séculos depois, era mais fácil encontrar na Internet resultados da banda homônima do que do equipamento em si. Além disso, começaram a mudar a safra todo ano ara preservar o solo, e a usar máquinas de colher e debulhar. O desemprego no campo disparou, e os trabalhadores que as cidades não absorviam acabam desaguando em minha propriedade. Ninguém entendia porque eu não aderia às técnicas mais modernas. E esse foi um dos maiores erros da minha vida. Não soube me misturar aos locais como acreditava.

Eu não precisava de empregados, nem dinheiro para isso eu tinha, mas as pessoas não entendiam, e achavam que eu estava fazendo algum tipo de especulação imobiliária, e as tensões no campo aumentaram. Semanas depois dos primeiros empregados desesperados por alimentar suas famílias me procurarem, começaram a vandalizar minhas plantações e a jogar pedras em minhas janelas. Era hora de ir embora mais uma vez.

Dizem que até hoje tem país da América Latina que não fez reforma agrária. Se foram capazes de destruir minha pequena propriedade, o que será que acontecia naqueles lugares, me perguntava enquanto caminhava a pé até o porto mais próximo, torcendo por passar desapercebido.

Em Londres, perceberam que minha longevidade era incomum. As condições de higiene na cidade também eram deploráveis, e o esgoto a céu aberto eram comuns. As políticas higienistas, pensadas a fim de se espalhar a propagação de doenças simples, estavam engatinhando ainda. Os cemitérios e indústrias ainda ficavam dentro das cidades, e faltava espaço para todos nestes primeiros. Os barões locais dos serviços funerários me encontraram, elogiaram minha saúde impecável, e me ofereceram uma boa soma para um serviço moralmente questionável: o trabalho era me deixar enterrar em jazigos já ocupados. A equipe dos cemitérios tratariam de descartar os restos mortais, e minha missão era, entre dois e três dias, dependendo da lotação, puxar uma cordinha ligada a um sino que ficava para fora. Na época, era uma forma de se indicar, aos funcionários, que aquela pessoa ainda estava viva e fora enterrada por engano. Assim, os caixões eram abertos, colocavam-se os ossos que lá restassem num ossário e o túmulo era utilizado para outro indivíduo.

Por vezes, ao abrir os caixões, percebia-se que havia arranhões nas tampas, do lado de dentro, o que indicava que aquele morto, na verdade, fora enterrado vivo. A catalepsia era muito comum na época. Então, o trabalho sujo para o qual me contrataram fazia muito sentido na época.

Moralmente, fiquei em grande conflito comigo mesmo. Mas não havia outra forma de eu ganhar dinheiro, na caótica Londres da época. E julguei que apenas viajando para o Novo Mundo as coisas poderiam melhorar, longe das crendices, falta de higiene e problemas sociais do velho continente. Quanto mais eu me dedicava àquele serviço, mais eu invejava a vida de todos aqueles moradores da necrópole, com um final, um desfecho, com pessoas que viviam o bastante para ter condições de sentir falta delas.

Eu nunca tive isso.

Ninguém vivera o bastante para me velar, para chorar por mim. Sem a morte, a vida é um continuum perturbador, uma experiência essencial que eu nunca tive. Apenas outro imortal poderia fazer isso em mim, e mesmo assim... seria algo paradoxal.

O problema era que o velho, dono do cemitério, era tão miserável que não queria contratar gente para vigiar o sino. Então o que acontecia? Volta e meia batia um vento mais forte, e gerava-se aquela confusão. Não se sabia se a pessoa estava viva ainda ou se era apenas a natureza passando. Fiquei um tempo executando este trabalho, até que um dia o vento passou pelo sino bem no dia que uma família visitou o túmulo de seu ente querido. A equipe do cemitério ouviu o sino, os parentes viram tudo, e hesitaram em exumar o suposto corpo. Sem escolha, tiveram de abri-lo em frente à família, depois de muita discussão. Ao verem meu corpo vivo, corado, entraram em choque: uma mulher desmaiou, um dos filhos do casal fugiu e o homem começou a gaguejar e a brigar com os coveiros, querendo o dinheiro do jazigo de volta. E, pouco tempo após perceberem o engodo em que haviam se metido, sobrou até para mim, e foi por pouco que não fui linchado naquele dia: as outras famílias se juntaram aos parentes enlutados e enganados pelo dono do cemitério.

Corri para minha casa, peguei todas as economias que tinha guardado ali, e peguei o primeiro barco disponível. Foram meses vagando pelo mundo.

Você pode achar engraçado, mas depois de um tempo, a claustrofobia de um caixão me fazia relaxar. Qualquer idiota poderia ficar perto da morte, sabendo que não passaria por seus portões nem se quisesse.

Notei que o astronauta me olhava incrédulo, fascinado, e comentou:

— Talvez você não queira tirar sua vida, talvez tenha apenas uma fascinação pela morte... já ouvi falar de gente assim.

— É, mas essas pessoas um dia morrem... — Lamentei.

— E como você se tornou imortal?

— Não sei. Passou-se tempo demais. Tanto tempo que meu cérebro precisa dar lugar a memórias mais recentes, para se manter funcionando.

— Nunca aconteceu um acidente com você, grave o bastante para matar alguém?

— Sim, com certeza...

Uma vez, eu estava fazendo uma viagem de trem. Uma novidade dos ingleses que se espalhava pelo mundo todo, na esteira da Revolução Industrial. Só que eu viajava pela terceira classe, o dinheiro sempre contado. Novas tecnologias surgiam, e eu não dava conta de aprender coisas novas no mesmo ritmo dos jovens, ou mesmo no mesmo ritmo dos velhos daquela época. O mundo tornava-se um lugar cada vez mais misterioso para mim.

Escolhi o lugar mais afastado de tudo que eu consegui pensar, e passei décadas ali: a Amazônia.

Que lugar infernal, aquele! Úmido, cheio de mosquitos, índios e missões de colonização por toda parte. Mesmo as viagens de trem eram arriscadas, e um dia, ao pegar o trem na estação de ferro Madeira-Mamoré, cheio de seringueiros, prostitutas e aventureiros de tudo quanto é tipo. O ciclo da borracha

A estrada de ferro garantiu para o Brasil a posse da fronteira com a Bolívia, mas sinceramente, era melhor ter deixado com eles. A civilização parecia algo tão novo ali que era como se eu tivesse rebobinado a própria história. Era quase como me sentir jovem novamente, em um mundo novo, sem tantos povos caídos e ufanismos feridos como no velho continente. Era quase um novo planeta. Foi o mais perto que cheguei de me sentir jovem novamente. Nem mesmo as lembranças me ajudavam a lembrar os bons momentos de quando fui moço um dia: como te falei, as memórias vão ficando cada vez mais difusas com o tempo. Não tem graça sentir saudade de memórias que você não tem certeza se correspondem à idade em que você sentiu ao se lembrar delas.

Mas deixa pra lá, ninguém tem como entender.

Voltando ao trem... a viagem que fiz foi bem no finalzinho do ciclo da borracha. Quanto mais longe eu estava do velho continente, mas eu tinha a sensação de estar perto do mais autêntico que poderia haver da natureza humana.

Um trabalhador tentou fugir do seringal, e um capanga do chefe dele estava junto no vagão para impedir a fuga. Disparou dois tiros, e um deles me acertou no estômago. Por um descuido, não fecharam a porta do vagão direito, e em meio à multidão e o empurra-empurra, acabei caindo para fora. Rolei várias vezes até o trem passar completamente por meu campo de visão. Cheio de feridas, e tossindo em meio à toda aquela poeira de terra batida vermelha, fiquei ali gemendo por um bom tempo, os estilhaços da bala comprimindo os músculos ao redor.

A chuva torrencial chegou pouco depois. Lavou o local da ferida, e quase me engasgou, já que era difícil rolar para os lados. Algumas horas depois, sem animais selvagens nem índios passando por perto, levantei-me com dificuldade, sentindo a bala afundar. Mas, ao olhar para a ferida mais de perto, eram os músculos de meu corpo que estavam tentando expulsar a bala, e não a bala penetrando meus músculos. Segundos depois, ela pulou para fora, como um inocente pedregulho.

Passou-se tempo o bastante para o trem passar novamente. Ao me verem, tripulação e passageiros gritaram estupefatos, em desespero, achando que eu era uma assombração, algum espírito da floresta. Voltei a pé para a estação de onde eu saíra. Originalmente, eu ia passar um tempo na Bolívia, atrás de emprego, mas eu já chamara atenção demais. E não sei se me acostumaria à altitude.

Ao voltar à estação, a notícia se espalhou rápido. Em frente às igrejas da cidadezinha, o padre apontava uma cruz em minha direção e falava para o diabo sair de meu corpo; as crianças fugiam de mim nas praças; os militares que vigiavam a fronteira me abordaram; os médicos queriam fazer autópsia em mim, e ficaram de plantão para quando eu morresse, como desculpa para testar tratamentos e pesquisas que os grandes centros não permitiriam; e os populares se dividiam entre os que se escondiam em casa e os que saíam de casa com trabucos para me matar. A população da cidade quase dobrou com os forasteiros chegando, querendo seu quinhão com a fama em cima do super-homem amazônico. Tive que fugir.

Mesmo onde a história parecia recomeçar, não estavam dispostos a me aceitar, a tentar me compreender.

— Opa, os efeitos da gravidade zero começaram...

Começamos a flutuar. Era sinal de que estávamos longe da Terra. Eu não quis olhar a escotilha.

— E você chegou a ter filhos? Todo esse tempo sem buscar uma mulher... não acredito em você.

— Elas são a parte mais doída de ser imortal. Eu não lembro mais de minha mãe. Não lembro do toque, do sorriso dela, da proteção. Me sinto vazio. Não sou mais produto do meu meio. Nada que me define existe mais. Nada vem do nada. Não era isso que Shakespeare dizia? — Comentei, e prossegui com meu relato.

Claro que eu sinto falta de me apaixonar, de sentir os mistérios do sexo feminino, daquelas pequenas aventuras de se entregar aos encantos e amores. O melhor jeito de se envelhecer e rejuvenescer ao mesmo tempo. Aquela sensação de morrer e viver a cada decepção e mimo infligidos a elas. Eu era imortal, mas isso não significava que todas as minhas funções biológicas acompanhavam todo o tempo que permaneci vivo. Não sou de Luggnagg nem descendente do Wolverine. Eu não produzia mais espermatozoides. O mundo não veria traço algum de minha linhagem.

Dos jornais e livros que demoravam para chegar no Centro-Oeste brasileiro, para onde eu fugira após ser hostilizado na Amazônia, via o mundo como eu conhecia se dissolvendo mais e mais rápido: a queda dos impérios austro-húngaro e turco-otomano, as duas grandes guerras, os genocídios, a Guerra Fria, a corrida espacial.

— Foi quando dei-me conta de que talvez eu não pertencesse à Terra. Por que não? O mundo vinha mudando tão rápido... — Falei para mim mesmo.

— Talvez você não seja imortal, talvez você ainda não tenha vivido o bastante para conhecer a morte. Talvez... você seja uma mutação genética que te dê uma longevidade sem precedentes entre os outros homens.

Olhei para um traje espacial extra, que ficava naquele módulo, e o astronauta me ajudou a vesti-lo. Foi mais demorado do que eu pensava. Claro que pensei se eu realmente sabia o que estava fazendo. Mas me sentia idiota; muitas investidas da natureza não me detiveram no passado; será que dessa vez daria certo? Eu já fora parar em hospitais antes, e os idiotas sempre davam um jeito de me reanimar. Nada mais polêmico do que ser dono, de verdade, da própria vida.

— Como seria morrer no vácuo? — Perguntei.

Na Terra, eu sabia. Após o palor mortis, viria o livor mortis: minha pele mudaria de cor, e todo o líquido em meu corpo começaria a empoçar nas partes mais próximas do chão, pela ação da gravidade. Em pouco tempo, o rigor mortis e o algor mortis. Meu corpo viraria coisa. Era engraçado pensar que o misterioso fato da vida, em nosso corpo, era apenas questão de onde o sangue e demais fluidos se posicionavam no corpo.

Agora vestido com o traje, minha existência passava a fazer mais sentido. Meu corpo... talvez ele tenha uma capacidade, acima da média da maioria dos seres vivos, de remanejar com rapidez a forma com que a circulação das substâncias vitais passa por meu corpo. Mais ou menos como um lagarto que consegue recompor o próprio rabo após perdê-lo.

Ácidos e gases fariam meu corpo inchar.

Então, não havia nada de metafísico ou extraterrestre em minha longevidade anormal. Não havia nada de alienígena em mim; eu era apenas um erro da natureza a meu favor. Mas o mundo me via como um erro contra eles. A vergonha, ah, a vergonha... quantas noites em claro passei chorando, ouvindo as palavras de ódio, as risadas, o escárnio, diante da aparência atípica que eu tinha... agora, diante do espaço, tudo acabaria. Tinha que acabar.

— É difícil dizer, não há uma resposta definitiva —, ponderou o astronauta. Olhou-me, faltando-lhe ar, e acrescentou — No espaço, você perderia a consciência em quinze segundos, já que o oxigênio não chegaria a meu cérebro. Talvez seus pulmões explodissem, mas seu corpo ficaria à deriva. Intacto, por décadas, séculos, milênios, ao sabor do vácuo. Sem o traje espacial, você congelaria a temperaturas baixíssimas.

— Mas mesmo isso, no passado, isoladamente, não foi o suficiente para mim.

— Por outro lado, perto demais de uma estrela, por exemplo, toda a água de seu corpo poderia evaporar. Não há meio-termo no espaço. — Dirigiu-se para trás de mim e concluiu — Seu corpo ficaria completamente esterilizado pelo vácuo, se não houvesse fontes de calor por perto, e depois de todo esse processo, tornaria-se inabitável para as bactérias.

Nós dois fitamos a porta do módulo que dava para o espaço. Poucos centímetros nos separavam do vácuo. O astronauta ajustou seu traje e fechou o capacete. Fechou o meu também, acertou os últimos detalhes, e perguntou se eu tinha certeza. Não respondi.

— Se nos conhecêssemos melhor... você choraria por mim, ao me ver morrer nesse imenso negrume?

— Sinto muito... é impossível chorar no espaço.

A resposta dele era técnica, mas me entristeceu mesmo assim.

— Vocês vão me recolher como uma cobaia, após eu morrer, né? — Agora era o astronauta que não respondeu — Minha imortalidade não vai passar de uma vaidade estética pra vocês degradarem mais ainda o planeta... para arrumarem soluções a problemas que a própria humanidade cria.

Fechei o capacete. O astronauta empunhou uma faca e fez um pequeno corte em meu traje. Seria o suficiente para o vácuo me esmagar. Ele se segurou em uma barra no módulo, retirou-se daquela parte do foguete, e quando ficou em segurança, abriu o módulo completamente. E logo fui puxado pelo vácuo.

Vi as estrelas a meu redor, a Terra cabendo em meu dedo indicador e a certeza de que as pesquisas que viessem de meu corpo seriam o fim da humanidade. Um mundo sem mortes é um mundo onde é impossível manter sistemas previdenciários e os mais rudimentares códigos morais e éticos.

Embora tivessem tentado me matar, no passado, em nome de Deus, durante a Inquisição, olhei para o vácuo, e disse, como epitáfio:

— Perdoe-os... eles não sabem o que fazem.


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