O dia que o mundo perdeu gravidade

Os cientistas nos avisaram que este dia chegaria. Não sabiam por quanto tempo, só sabiam que uma raríssima convergência de fatores, envolvendo a rotação de nosso planeta e um específico e sutil deslocamento da órbita do sol causavam tal fenômeno. Cientistas aquecimentistas foram hostilizados nas redes sociais, alguns tiveram de fugir de suas casas, e o mais irônico era que os malucos terraplanistas e anti-vacinação passavam a ganhar mais e mais crédito. Ciência não importava mais, o importante era querer acreditar. Mas aquele dia mudaria tudo. Saiu muito caro para o mundo ignorar as regras da natureza, por mais que as ignorassem.

A tevê não falava diretamente daquilo, apenas denunciava a criação de algumas seitas conclamando as pessoas a se matarem, alertando para o juízo final, com analogias e interpretações bíblicas absurdas, essas coisas. A princípio, poucas alterações na previsão do tempo. Dia ensolarado, pouca chance de chuva. Desliguei a tevê, cansado após um dia inteiro fazendo levantamento de estoque, e fui dormir.

Levantei-me, como em um dia comum, e me arrumei para ir ao trabalho na loja de calçados onde me empregavam. Eu falava sempre para mim mesmo que era apenas um bico até aparecer um sim nas inúmeras entrevistas de emprego que eu caçava após a faculdade, mas estava cada dia mais difícil continuar acreditando. As contas continuavam a chegar. Tomei o café-da-manhã, vesti o uniforme e, quase terminando de amarrar meu sapato... senti meus pés suspensos do chão.

Assombrado, balancei os braços e desequilibrei-me, chocando-me contra o espelho. Então era verdade.

Minha namorada me ligou, desesperada.

— Amor, tô com medo! Quase batendo a cabeça no chão. Nós vamos morrer!

Ri, e tentei acalmá-la. Talvez fosse um fenômeno como um eclipse, argumentei. Embora todos soubessem que esse dia chegaria, as pessoas o sentiam como uma espécie de fake news. Como se fosse apenas sempre com os outros. Nunca conosco.

A tevê desacreditava essa pauta, e a notícia só circulava nas redes sociais. as autoridades foram orientadas e não alarmar a população. O máximo que se via nas ruas eram viaturas circulando, à espreita, para conter tumultos.

Fui até o ponto de ônibus, quase nadando na atmosfera. Uma estranha e claustrofóbica liberdade. Uma senhora, flutuando, encalhada contra a parede da fachada do prédio, pouco antes do ponto, chorava quietinha. Ajudei-a a descer dali, mas pouco depois a gravidade a suspendia novamente. Nada podia ser feito, nem por mim nem por ninguém. As crianças corriam e comemoravam, suspensas no ar. Os garis, frustrados, não conseguiam varrer a rua, e a poeira que tentavam remover da rua ia direto para os olhos deles. Algumas sacolas e sacos pretos começaram a flutuar, às vezes sendo rasgados por populares na periferia, para observarem o lixo vazar, por mera fascinação pelo desconhecido.

Bairros inteiros passaram a ter casos de famílias sendo destruídas quando esses sacos eram rasgados e coisas como camisinhas, por exemplo, flutuavam. Havia mais coisas bizarras que flutuavam do lixo, mas eu não tinha estômago nem tempo para as páginas policiais.

O ônibus chegou, era as rodas percorrendo o asfalto, ora se suspendendo em pleno ar conforme ganhava velocidade. Esse movimento instável fez com que, como um barco, o frio a gás levasse mais tempo que o normal para frear, e acertasse a traseira de um SUV estacionado pouco depois do tempo.

Acidentes assim ainda eram frequentes em nossa cidade, mas em outras a população se habituou melhor à nova gravidade.

Um operário da construção civil passou pela catraca comigo e comentou, ao observar o bate-boca do motorista com o dono do SUV, trocando informações de seguro. Que supus que faliriam em breve, dada a alarmante quantidade de acidentes naqueles tempos.

— Loucura! Meu primo não consegue mais tirar a carteira, o Detran suspendeu todos os testes novos.

Segui viagem a pé, segurando a barra vertical em frente à porta de desembarque. A viagem levou mais do que o esperado, em parte porque o motorista, todos no ônibus apreensivos e em silêncio, queria evitar acidentes, e também porque, conforme motos, lambretas e carros mais leves, como Unos e QQs flutuavam mais do que os outros, tentavam furar todos os sinais vermelhos que encontravam.

Cheguei por fim à loja. Meu chefe, inconsolável e dando ordens a homens levando embora parte de nosso estoque, levantou-se ao me ver:

— Aí tá você, Ernesto. Esqueci de te ligar. A gravidade chegou na sede do conselho uns meses antes, e estão reformulando as operações — Continuou, com o típico rodeio com palavras, que sempre fazia, quando nervoso — Procure o RH depois, rapaz. Sinto muito.

Os colegas que chegaram antes de mim, sentados na calçada, ora flutuando, ora se assentando de volta nela, estavam desesperados. Beatriz tinha filhos para criar, e outros discutiam entre si, querendo buscar algum culpado.

Fiquei aborrecido e preocupado. Tando dia para eu ser demitido, e isso ocorreu justo quando meus pais vinham me visitar. Eu os pegaria no aeroporto em algumas horas. voltei a pé para casa, cabisbaixo, e recebi mensagem de mamãe, com foto do salão de embarque no maior tumulto:

"Voo cancelado. Avião não consegue pousar nem decolar. Um Boeing rodopiou no ar e quase acertou o terminal com a asa."

Liguei desesperado para ela, mas todas as linhas estavam congestionadas. Voltei a pé para casa, para pensar. Tentei ligar mais algumas vezes, sem sucesso. Joguei meus sapatos, fora, e notei que as ruas estavam cheias deles, também: tornaram-se obsoletos. Cenário de guerra, de alguma forma: uma das primeiras coisas que as pessoas deixam para trás, em situações traumáticas, eram calçados. Mesmo antes de a gravidade mudar, eu sempre sentia calafrios ao encontrar sapatos abandonados pela rua. Me passava pela cabeça a mesma pergunta: o que aconteceu? Que violência este calçado testemunhou? Quando um objeto prosaico como aquele não nos prende mais no chão, algo instintivo em nós se perde. Voltamos a nos conectar com a natureza e anos lembrarmos de nossa vulnerabilidade diante dela. Mas tergiverso.

Ouvi transeuntes dizendo uns aos outros, conforme caminhava:

— A gravidade não vai voltar mais! — Os mais apocalípticos gritavam.

— ...na minha tia, tá rolando arrastão. Desabastecimento no bairro dela. Ela vai às cidades vizinhas comprar cordas de náilon para amarrar os filhos e eles não saírem flutuando. — Tinha também as histórias difíceis de acreditar. Mas aquela em particular passou a ficar plausível; reduzi o passo e ouvi mais um pedaço — Ficou mais perigoso cozinhar, ela volta e meia se queima. Tá usando mais o microondas.

Nos bares a caminho de casa, os homens se lamentavam: a tevê em um deles anunciava o cancelamento da final da Copa Sul-americana. Que juiz ousaria apitar uma partida sem gravidade?

Cheguei em casa, ouvi música no celular enquanto atualizava meu currículo e dormi o resto da tarde. Só no final do dia consegui notícias de meus pais. Levaram quase o dia todo para voltar para casa; a via expressa sofreu um engavetamento de dezenas de quilômetros, quando um carro perdeu o controle, bateu de frente e gerou um efeito dominó, e um caminhão virou em L ao tentar sair da marginal.

No dia seguinte, a gravidade baixou, e deixei de ignorar os ambulantes vendendo cordas por toda parte. Os efeitos da gravidade pioraram, e só se amarrando nas grades das janelas ou nos postes, para não sair flutuando sem rumo nem controle sobre o próprio corpo.

Minha namorada estava assustada, me ligou novamente e decidi passar um tempo na casa dela. Mas não foi fácil chegar à casa dela: os ônibus estavam atrasando muito, não conseguia tocar no chão com meus pés, e só para não ficar preso suspenso no ar, tive que amarrar minha corda a uma casinha de cachorro. O Rottweiler não gostou de me ver ali, estava recluso e agressivo, avançou contra mim, e logo me mordeu. Me engalfinhei com ele, rolando suspenso ao ar, até que, ao soltar uma mão da boca dele, com marcas profundas dos dentes dele, peguei a corda de náilon, dei uma volta no focinho dele e apliquei um nó leve, para me livrar do ataque dele.

— Sinto muito, garoto...

Tentei voltar para baixo, como que nadando, mas não conseguia descer. A minha sorte era que o cão estava acorrentado, então foi possível segurar-me nele, amarrar minha corda à coleira dele, e me puxar para baixo através da corrente que prendia a coleira dele, até descer de volta ao chão.

Notei que, por trás do alambrado que cercava o cão, eram os fundos de uma pequena loja de artigos de paisagismo.

Sentei-me com o cachorro, pensando no que fazer, rodeado por várias xaxins. E vi sacos grandes com húmus. Engatinhei pelo chão dos fundos da loja, cuja passagem possuía alguns blocos cercados com xistos fazendo as vezes de rejunte. Soltei a corda que me prendia à coleira do cachorro e desprendi o focinho dele, cravei os dedos nas saliências dos blocos e arrastei-me lentamente. O Rottweiler não teve tempo de me atacar novamente; voltou a flutuar. Segui devagar até alcançar os sacos enormes, peguei um, quase sendo tragado pela gravidade novamente, e amarrei-o às minhas costas.

Senti meus pés se assentando no chão e uma felicidade pueril me tomou. Caminhei devagar até o alambrado, galguei-o devagar e joguei-me do outro lado. Se o dono da loja me viu, não perdeu trabalho atrás de mim: quem conseguiria fazer paisagismo, plantar qualquer coisa, diante de uma gravidade que não permitia revolver o solo, e talvez nem oferecer oxigênio nas condições necessárias para o crescimento de plantas? Pelo menos foi o que teorizei.

De volta à rua, segui minha caminhada em direção à casa de Eliane. Os passos eram lentos, exaustivos, difíceis. Uma caminhada que levaria uns quarenta minutos levou quase duas horas. Finalmente diante da casa dela, caí de joelhos e senti parte do peso do saco imenso sobre minhas costas. Bati à porta com minhas últimas forças.

Ninguém atendeu.

Aconteceu algo com ela. Eu havia chegado tarde. O que será que fizeram com ela? Tem gente cometendo saques, invasões a casas, achando que a lei foi suspensa junto com a gravidade. Temi pelo pior. Até que ouvi a maçaneta girar. Abriu-a com as duas mãos, suspensas horizontalmente ao ar.

— Entra logo!

Continuei agachando-me, rolei para o lado, e empurrei a porta com a perna livre, com as forças que a gravidade me permitia. Fui até a fechadura, e girei a chave, como se aquilo fosse uma operação delicada e difícil.

— Graças a Deus você tá bem! A porta, fazia dias que eu não conseguia fechar. — Foi até meu peito, juntou-se a mim e, o cabelo cobrindo minha visão, suspenso, me disse — Fiquei com tanto medo...

Um cheiro de suor, fedor e uma crosta de sujeira que começava a escurecer a pele dela me incomodou. Explicou:

— Não consigo mais tomar banho, a água... ela simplesmente flutua, não consigo levar ela a meu corpo!

Nosso cotidiano, pelas próximas semanas, praticamente se resumiu a ficarmos enclausurados na casa de Eliane. Era perigoso demais sair. Qualquer tentativa de ir muito longe poderia resultar em ficar suspenso no ar e atingir dezenas de metros de altura do solo com facilidade. Mesmo o risco de eu estar com raiva e precisar de vacina não me fazia sair. Pela tevê, víamos se descortinando aquele mundo novo sinistro diante de nós. As ações da indústria armamentista começaram a despencar, já que a gravidade tornava várias armas de fogo inúteis: a explosão da pólvora que liberava as balas não era suficiente para vencer a gravidade, e matar inimigos com fator surpresa em guerras e abordagens policiais, por exemplo, tornou-se praticamente impossível. A indústria tabagista também sofria, já que manipular fogo ficou muito difícil. Transportar produtos, seja qual fosse a infra-estrutura dos países para isso, tornou-se tão arriscado que os preços de todos os bens de consumo dispararam. Trens descarrilavam, caminhões viraram em L quando a carroceria era suspensa nos períodos em que a gravidade piorava, e aviões não saíam mais do chão.

Esses e outros fatores geraram uma crise econômica sem precedentes, que fez o comércio local em cidades por todo o mundo, como a nossa, ser dizimado. O dinheiro perdeu valor, já que os países tinham opções cada vez mais limitadas de importações e exportações. Na tevê, era possível ver ruas de comércio popular repletas de cédulas que praticamente não tinham valor. Estávamos pouco a voltando à época do escambo.

Diversos alimentos ficaram difíceis de encontrar, passávamos dias sem comer, e estávamos perdendo peso a olhos vistos. Volta e meia motos, placas, animais de médio porte, geladeiras e objetos mais leves chocavam-se contra as paredes da casa de Eliane, interrompendo nossos sonos cada vez mais raros.

A cada dia que passava, assistíamos assombrados a atmosfera do planeta tornar-se um grande sopão de entulhos flutuando pelas ruas, uma assustadora e fascinante réplica da órbita espacial da Terra, cheia de lixo espacial, restos de asteroides e outros detritos. Tudo isso agora diante de nossos olhos. Eu cresci em um mundo em que era possível ignorar toda a sujeira que a humanidade fazia, e esse mundo não existia mais. Toda a sujeira produzida por nós passeava pelas cidades, como que debochando de nossos excessos.

Minha febre aumentava dia após dia. Dores de cabeça, salivação excessiva, espasmos musculares, confusão mental... eu estava com raiva, mesmo. Alguns espasmos se transformavam em cãibras, e era difícil andar. Eliane insistiu até sairmos de casa, para buscar atendimento. Procuramos clínicas e hospitais, mas a maioria estava abandonada, algumas com pacientes que se amarraram na fachada, à espera de atendimento. Quando encontramos um para me atender, fui ao pronto-atendimento, com o saco de húmus amarrado às costas, e segurando Eliane pela mão. Na recepção, nos informaram:

— Vai ter que esperar, senhor. Estamos com pouco pessoal.

Parece que os hospitais foram das coisas que mudaram pouco com a suspensão da gravidade: o atendimento continuava demorado e incerto. A sala de espera estava cheia, com pessoas para lá e para cá. Aguardei muito tempo ali até aparecer uma enfermeira para aplicar a injeção em mim. A julgar pela forma como meneou a cabeça, eu sabia que demorara demais para buscar tratamento.

Com as dores constantes e inchaços pelo corpo, era como se este se recusasse a ser comandado por mim. Voltei para casa com Eliane, a pé. Passamos por uma procissão liderada pelo padre de uma paróquia da região, fazendo rezas nas quais imploravam aos céus por perdão. Os fiéis conseguiam seguir em fila indiana segurando-se em uma corda amarrada na porta da igreja, tipo um círio, e aos poucos cordas como aquela foram se multiplicando. Conforme serviços como água, energia, internet e outras amenidades humanas iam cedendo aos desafios técnicos devido à gravidade nova, as cordas acabavam sendo a única forma de se deslocar de um ponto a outro.

Avançando mais um pouco, as dores de cabeça piorando e o peso do saco me castigando mais e mais, comecei a encontrar brigas e bate-bocas. Quando algumas cordas eram ligadas a supermercados, lugares que sofriam desabastecimentos constantes, os funcionários a desamarravam de propósito para evitar saques. E não demorou muito para a formação de milícias. As cordas que davam acesso a bairros mais distantes passaram a ser controladas por criminosos, e estes cobravam para que as pessoas tivessem acesso às cordas. Qualquer deslocamento passou a ser feito assim, a pé, sempre segurando-se por cordas.

A vida virou uma enorme fila indiana.

Um lava-jato foi improvisado como banheiro público, e Eliane pediu para tomar um banho ali, em meio às grandes cercas cilíndricas. Nas palavras dela, queria sentir, mais uma vez, o cheiro de sabão, água e limpeza tomar seu corpo. Sentir-se humana mais uma vez. Concordei com a cabeça e aguardei-a na corda. Observei-a prosseguindo pela corda até chegar ao local. Pagou pelo banho com as últimas economias e esperou sua vez na fila por uns quarenta minutos.

Ao voltar em minha direção, o cabelo ainda úmido, segurando as roupas de cima molhadas e torcendo a saia, me perguntou:

— O que fizemos pra merecer isso, Ernesto? Já se perguntou isso?

Cansado, o olhar derrotado, eu não soube responder. Não sentir os pés no chão é uma tragédia de dimensões impensáveis. Pensei na morte pela primeira vez, depois de todos aqueles dias. Como velariam meu corpo? Como me enterrariam? Meu cadáver ficaria pairando sem rumo pela atmosfera com menos gravidade, sendo profanado por pássaros, decompondo-se ao sabor dos lugares por onde o acaso gravitacional me levasse?

Não contei a Eliane essa minha divagação.

Percebi que a gravidade arrancou da humanidade grande parte de sua capacidade de tradição. Não havia mais posses, vaidade, o luxo de agarrar algo e chamá-lo de seu, sem os céus te suspenderem em sua direção o tempo todo. Apesar de todo o absurdo a nosso redor até então, foi naquele instante que percebi que a vida não tinha mais sentido.

Eu sabia que, doente, eu só a atrasaria. Ela poderia inclusive ser acometida por algum perigo daquele mundo novo, que se mostraria ainda mais perigoso só de ter de arrastar um moribundo como eu. Levei uma das mãos ao ombro dela e disse:

— Vou sempre te amar, Eliane. Sem mim, suas chances são melhores.

Entreguei a chave de minha casa na mão dela, beijei-a na testa, senti uma lágrima cair de meu rosto, e soltei a corda.

Flutuei.

Eliane gritou, implorou para eu voltar, mas minha subida foi rápida. Acenei um tchau para ela e subi, subi.

Vi o mundo, pouco a pouco, reduzir os detalhes diante de minha visão a pontinhos, formigas operárias de um mundo castigado pela natureza. O que era grande, imponente, agora se reduzia, se mostrava em toda sua insignificância, daquela distância. Fechei os olhos, e aguardei a raiva consumir minha saúde. Seja lá como a natureza viesse a profanar meu corpo, que fosse longe das pessoas que amo.

Era o mais próximo que eu conseguiria chegar do céu.


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